Dúvidas

Questões sobre a vocação pessoal de cada um

Como me decidir pelo que eu quero?

Este texto pode parecer um pouco complicado para os leitores mais jovens, mas ele traz alguns pontos importantes para compreender a ação humana e a escolha. 

15Eis-me aqui ignorante,
Homem novo diante de coisas desconhecidas.
Eu viro a face para o Ano e a arca chuvosa, eu tenho meu coração cheio de tédio.
Eu não sei nada e eu não posso nada.  Que dizer? Que fazer?
Em que eu empregarei estas mãos que pendem? Estes pés que me levam como os sonhos?

Diante de cada decisão a tomar, eu me encontro no limite, como Cebes nas primeiras frases de “Tête d’or” (1): numa estado de abertura  diante de um futuro que me é em grande parte desconhecido, eu sou a minha própria entrega, me entrego a mim mesmo não somente para refletir sobre mim, mas sobretudo para me fazer. Ao mesmo tempo, quando por um “Eis-me aqui” eu respondo em primeira pessoa, eu experimento como que uma dor diante da impossibilidade de me decidir por isso ou por aqui: o que fazer? Como usar esta liberdade que me parece de repente como uma dignidade cara e ridícula?

A decisão, marca da consciência 
16Eu posso, então, evocar com nostalgia este tempo, em grande parte sonhado, onde eu me encontrava como que levado pela corrente da vida sem divisões interior, sem diferença de mim para mim mesmo, sem hesitação. No entanto, a indecisão, o tempo da inatividade, o tempo da não ação, é uma condição de ação verdadeiramente humana. Nestes pontos de suspensão se amplia o espaço para a deliberação e a reflexão. Da mesma forma que todo progresso no pensamento supõe a consciência de um obstáculo a ultrapassar, um problema a resolver, a escolha verdadeira – “desejar inteligente” (São Tomás de Aquino), e não simples impulso – supõe a inibição do comportamento automático e o acesso a consciência. Portanto, o momento próprio da inteligência, esta dinâmica petrificada que evoca bem “O pensador” de Rodin, parece como uma paralisia do impulso vital, como uma falha da ação. Nesta tomada de consciência que caracteriza a indecisão, eu me descubro a mim mesmo de repente atravessado por milhares de contradições. Meus instintos, meus afetos, meus desejos, iriam prevalecer se fossem simples, eles me solicitam em mil direções.
A reflexão acrescenta a esta divisão interior, a esta luta interna: como o branco suscita o preto para ser percebido, como a conceito supõe seu contrário para ser pensado, neste tempo de discriminação o motivo que poderá me fazer agir chama os motivos contrários que merecem igualmente ser escolhidos. A inteligência, resgatada aqui pela imaginação, multiplica as negações, as objeções, as suspeitas, para me mergulhar na vertigem da indecisão.

Acolher a indecisão 
A indecisão é assim propriamente o tempo da crise. Aqui é definida, depois de Hipócrates, como um entre dois, entre a vida e a morte, a condição do diagnóstico, um chamado a julgar e a escolher. Esta referência ao campo medical conduz a evocar três patologias da indecisão.

1-A abstenção
A consciência faz surgir mil motivos para escolher e que são igualmente possíveis e reais. Antes da reflexão,  eu não sabia que tantos caminhos diversos ser abririam a mim, promessas de  tantos futuros diferentes. Na indecisão, eu refiro-me a mim mesmo como um conjunto de  infinito desejos que eu mantenho vivos em minha imaginação onde são compatíveis. Assimilando rapidamente o indefinido das potencialidades diversas que contém em mim o infinito de um ser presente, eu fico tentado a reter egoisticamente este ponto que me iguala ao mestre do futuro. Não decidir me permite, além disso, continuar o sonho de minha ação, sem a confrontar as condições reais de seu despojamento.  E me mantendo na indecisão, eu recuso o definitivo que implica irremediavelmente a escolha: me é necessário renunciar a este futuro de muitos rostos para construir um futuro com uma possibilidade apenas. Toda determinação é negação.

2-O ativismo
Quem toma não pode abster-se – não escolher, é escolher não escolher – pode-se então buscar a perder o menos possível. Existe nisso como que um “dom-juanismo” (referência a Dom Juan) de ação que consiste em multiplicar os compromissos de um dia, a correr de escolha em escolha: aqui ele não consegue perceber a forma de recusa do sacrifício que implica toda ação. Ainda aqui existe o caráter irreversível da escolha, do engajamento na duração do tempo que suscita a angustia da perda. Jogar todos os papéis, estar sobre todas as frentes, é uma forma de se recusar a decisão que supõe a orientação e a unificação de todo o ser.

3- O voluntarismo
Eu vejo o que me falta para escolher e sair desta indecisão que revela uma divisão interior, mas um motivo deve se impor que me faça sair do círculo no qual eu estou fechado, a fim de lançar-me para o futuro. Mas o que me une? O sacrifício só pode valer diante de uma realidade que seja maior do que a mim mesmo, algo capaz de tornar-se uma Lei.  Eu agirei porque eu devo e como eu o devo, ajo em virtude de uma lei que se impõe a mim de toda altura de sua transcendência (lei do Dever, lei de Deus). O risco é sutil: se o motivo da lei não for suficiente para reunir em torno dela todos os poderes vivos de minha personalidade; assumindo que a lei me diz concretamente o que eu devo fazer, ela não me torna capaz de tudo, falta ser tocado na profundidade do meu ser. Então, uma lei considerada como um motivo externo de decisão faz nascer o desencorajamento e o sentimento de culpabilidade. Mesmo quando o sujeito age conforme a lei, ele o faz sem alegria e sem força. Podemos ainda falar de escolha se a inteligência não deseja que ela aconteça?

Como me decidir pelo que eu quero? 
Se abster de escolher, recusar fazer uma escolha, não querer a escolha que me impõe; nestes três casos limites, eu não quero querer e eu não quero o que eu quero; a indecisão não é ultrapassada. Como sair deste impasse?
É necessário que eu possa saber verdadeiramente o que eu quero e que eu o ratifique com a escolha. No entanto, apenas a ação engajada, permitindo-me viver minha decisão e observar seus frutos pode permitir, parece-me, uma decisão “em todo conhecimento de causa”… Eu sou então condenado a “permanecer com os braços cruzados”? Ou a permanecer prisioneiro do círculo que criei inicialmente pela necessidade de fazer uma escolha, como se eu fosse decidir a partir do nada ou apenas a luz dessas múltiplas razões equilibro na minha liberdade?
No entanto, esta decisão na qual não chego a tomar é precedida por outras decisões, por outras ações que fazem de mim o que eu sou e que podem me guiar para um discernimento. Se, nas minhas escolhas, eu me entrego a mim mesmo para me fazer, esta criatividade mesma, esta capacidade de iniciativa que é a minha me faz avançar… elas são edificadas no próprio dinamismo de meu desenvolvimento. Esta orientação constitutiva do meu ser do qual aspiro para tomar a consciência para levá-la mais longe por meio de uma escolha concreta, eu não a posso descobrir de outra forma que fazendo um retorno sobre minha vida e minhas ações passadas.
O tempo da decisão é então fecundo se me permite fazer memória, quando e como a Vida se desenvolveu em mim? Quando ela produz sua obra própria: criatividade, dinamismo, unificação? Quando ao contrário em qual escolha e por meio de quais ações o trabalho da morte produz tristeza, frio e imobilidade? Quando minha ação agrupa em torno dela não apenas meus próprios poderes, mas aqueles de outras consciências que pudemos substituir para conduzir mais longe? Quando eu conheci a Alegria? Porque a Alegria é bem o signo de que a vida aconteceu; nela, um vivente dotado de uma consciência prova interiormente o movimento criador se associando.
É assim que olhando minha vida, e graças a mediação de um outro, que frequentemente pode melhor que eu, me revelar a mim mesmo, eu descubro que esta alegria verdadeira é frequentemente fruto da provação e o esforço. Assim, eu posso me descobrir capaz de ir até o fim, capaz de criar e inventar, diante de uma situação inédita, uma resposta nova. Portanto, eu só posso sair da indecisão se eu reencontrar a fonte de um dinamismo vivo capaz de orientar minha liberdade.

Escolher ou ser escolhido?
No coração de minha indecisão, eu provo então que a vida está na raiz de meus movimentos. Que é através de mim ela acessa a consciência.  Ela exige meu consentimento livre para que sua força (dinamismo/arrebatamento) não cesse. Na minha escolha particular, trata-se de mobilizar esta energia e assumi-la de forma concreta para unificar e singularizar minha vida por meio de um fim consciente.
Eu posso então aceitar o risco de decisão: recusar agir em nome de um caráter sempre imprevisível das consequências de minha ação, é me cortar do que virá me enriquecer e me impulsionar a invenção. Recusar me comprometer em escolhas precisas que limitariam minha liberdade, é tornar impossível a encarnação da vida no singular, e a união lentamente conquistada entre o que nós queremos e o que nós somos.
Mas é a descoberta que faz o arrebatamento (força, impulso…) ser original e dinâmico, (o que eu quero) me leva a reconhecer minhas escolhas autênticas que se fundam sobre uma corrente que os ultrapassa. Uma escolha verdadeira, numa circunstância concreta (escolher um compromisso, um estado de vida, uma orientação…) se vive como ratificação de uma vontade mais primordial.
O impasse não se situa então no querer que não pode ultrapassar a indecisão, e na obstinação de querer fundar seu agir apenas sobre si? Privado das raízes de seu próprio ser, cortado da ligação fecunda que o ligaria ao movimento da Vida tal vontade não é condenada a permanecer estéril? Então, aquele que busca o que ele quer para fecundar sua ação é conduzido, se ele é consequente, a esta afirmação paradoxal: “No fundo de todo agir concebido pelo meu ego, há este outro agir, aquele da Vida absoluta que se revela ao aderir ao próprio ego”.
É neste consentimento da vontade a Vida em mim, que se prova a Alegria, que se exprime o ponto de querer. Foi assim no Fiat de Maria. Foi assim o último “sim” que Pedro pronunciou diante do Vivente que ele havia renegado por três vezes: “Simão, filho de João tu me amas?” O Cristo o conduz aqui a reconhecer sua verdadeira vontade, ultrapassar um querer autônomo e firmar sobre ele mesmo (“Quando tu eras jovens, tu mesmo colocarias a cintura e iria onde tu quisesses…”) para chegar a vontade do Espírito que configura o crente em Cristo: “Quando envelhecer, tu estenderas as mãos e outro de cingirás e te levará onde tu não queres ir.”

* * *

Assim, é no momento onde, entregue totalmente a si mesmo na verdade, que o homem escolhe permanecer aberto, e pode então consentir na vontade de Deus. E é isso mesmo que o faz entrar na vida.
Assim, é no momento em que totalmente entregue a si mesmo na verdade que o homem escolhe para permanecer aberto, e assim pode aceitar a vontade de Deus, é exatamente isso que o faz entrar na vida.
“Lá onde o homem acolhe sua existência até o fim sem nenhuma condição, numa confiança última de que esta existência pode ser acolhida, lá onde tal homem, num abandono absoluto, num absoluto ato de confiança, se deixa cair no abismo do mistério de sua existência, é lá justamente que está Deus que ele acolhe, não um Deus de apenas uma natureza, nem mesmo uma simples natureza de espírito, mas ele acolhe o Deus que se doa em sua infinita totalidade ao coração e na profundeza desta existência mesma”(3)
Alegria é então, para o homem de boa vontade, descobrir, longe da abstenção-negação, do ativismo conquistador e do voluntarismo, no coração da prova e na humildade, que ali está sua vontade.
“Não se trata de conformar nossa vontade a Dele, uma vez que a Sua vontade é a nossa. E quando nós nos revoltamos contra ela, isso só acontece ao preço de uma extração de todo ser interior, de uma monstruosa dispersão de mim mesmo. Nossa vontade é unida a Sua desde o início do mundo”. (4).
Assim eu posso melhor compreender porque devo “pedir a Deus o que eu quero e o que eu desejo”(Santo Inácio, Exercícios espirituais, 48). Nesta abertura radical que é a oração, eu quero como uma pessoa singular, confrontada a uma situação particular, com os recursos e as dificuldades que me são próprias. Mas este desejo que me habita e me orienta não é verdadeiramente meu, ele não exprime minha vontade profunda que na medida em que ela chama Aquele que é o Dom, Aquele que ouve e que sozinho cumpriu: o Espírito.
Ela expressa meu profundo desejo que assim ele chama a Ele que é o Dom, o que ouve e que só cumpriu: o Espírito.

 

(1) Paul Claudel, Tête d’or, Gallimard, col. « Folio », 1987. ( Poeta francês muito conhecido)

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Paul Claudel, Tête d’or, Gallimard, coll. “Folio”, 1987.
Michel Henry, C’est moi la vérité, Seuil, 1996.
Karl Rahner, Traité fondamental de la foi, Bayard/Centurion, 1983.
Georges Bernanos, Dernier agenda (Tunisie, 1948), dans Albert Béguin, Bernanos par lui-même, Seuil, 1954, pp. 146-147.
Fonte: J. Caron, “Querer o que eu quero” in Christus, (1997)173, pp 8-14. Artigo reproduzido com a amável autorização do editor. Jean-Caron é professor de filosofia no Centro Madaleine-Daniélou, Rueil-Malmaison.

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O que é a liberdade? (Bento XVI)

Le 20 février 2009, le pape Benoît XVI a rencontré les séminaristes du diocèse de Rome et a improvisé le discours suivant :
17Agora, queremos ver o que nos diz São Paulo com este texto: “Fostes chamados para a liberdade”. A liberdade, em todos os tempos, foi o grande sonho da humanidade, desde o início, mas mais particularmente na época moderna. Sabemos que Lutero se inspirou neste texto da Carta aos Gálatas, e a conclusão foi que a Regra monástica, a hierarquia e o magistério lhe pareciam como um jugo de escravidão, do qual era necessário libertar-se. Sucessivamente, o período do Iluminismo foi totalmente orientado, imbuído deste desejo de liberdade, que se julgava ter finalmente alcançado. Mas também o marxismo se apresentou como caminho para a liberdade.
Esta tarde perguntamo-nos: o que é a liberdade? Como podemos ser livres? São Paulo ajuda-nos a compreender esta realidade complicada que é a liberdade, inserindo este conceito num contexto de visões antropológicas e teológicas fundamentais.
Ele diz: “Esta liberdade não se torne um pretexto para viver segundo a carne, mas mediante a caridade ponde-vos uns ao serviço dos outros”. O Reitor já nos disse que “carne” não é o corpo, mas “carne” na linguagem de São Paulo é expressão da absolutização do eu, do eu que quer ser tudo e tomar tudo para si mesmo. O eu absoluto, que não depende de nada nem de ninguém, parece possuir realmente, de modo definitivo, a liberdade. Sou livre se não dependo de ninguém, se posso fazer tudo o que quero. No entanto, precisamente esta absolutização do eu é “carne”, ou seja, é degradação do homem, não é conquista da liberdade: o libertinismo não é liberdade, mas, ao contrário, falência da liberdade.

A liberdade realiza-se no serviço
E Paulo ousa propor um paradoxo forte: “Mediante a caridade, ponde-vos ao serviço” (em grego, douléuete); isto é, a liberdade realiza-se, paradoxalmente, no serviço; tornamo-nos livres, se nos tornarmos servos uns dos outros. E assim Paulo insere todo o problema da liberdade na luz da verdade do homem. Reduzir-se à carne, elevando-se aparentemente ao grau de divindade “Somente eu sou o homem” introduz na mentira. Porque na realidade não é assim: o homem não é um absoluto, como se o eu pudesse isolar-se e comportar-se somente segundo a própria vontade. É contra a verdade do nosso ser. A nossa verdade é que, antes de tudo, somos criaturas, criaturas de Deus, e vivemos no relacionamento com o Criador. Somos seres relacionais. E somente aceitando esta nossa relacionalidade entramos na verdade; caso contrário, decaímos na mentira e, no final, nela destruímo-nos a nós mesmos.

Somos criaturas, portanto dependentes do Criador.
No período do Iluminismo, sobretudo para o ateísmo isto devia parecer como uma dependência da qual era necessário libertar-se. Porém, na realidade, seria dependência fatal somente se este Deus Criador fosse um tirano, não um Ser bom, só se fosse como são os tiranos humanos. Se, ao contrário, este Criador nos ama e a nossa dependência consiste em estar no espaço, no seu amor, em tal caso a dependência é liberdade. Com efeito, deste modo estamos na caridade do Criador, estamos unidos a Ele, a toda a sua realidade, a todo o seu poder. Portanto, este é o primeiro ponto: ser criatura quer dizer ser amado pelo Criador, estar nesta relação de amor que Ele nos concede. Disto deriva em primeiro lugar a nossa verdade que é, ao mesmo tempo, chamada à verdade.
E por isso ver Deus, orientar-se para Deus, conhecer Deus, conhecer a vontade de Deus, inserir-se na vontade, ou seja, no amor de Deus é entrar cada vez mais no espaço da verdade. E este caminho do conhecimento de Deus, do relacionamento de amor com Deus, é a aventura extraordinária da nossa vida cristã: porque em Cristo conhecemos o rosto de Deus, o rosto de Deus que nos ama até à Cruz, até ao dom de si mesmo.

Estamos em relação com Deus, mas, ao mesmo tempo, uns com os outros
Mas a relacionalidade criatural implica também um segundo tipo de relação: estamos em relação com Deus, mas, ao mesmo tempo, como família humana, estamos também em relação uns com os outros. Por outras palavras, liberdade humana significa, por um lado, estar na alegria e no amplo espaço do amor de Deus, mas implica também ser um só com o outro e pelo outro. Não existe liberdade contra o outro. Se eu me absolutizo, torno-me inimigo do outro, não podemos mais conviver, e toda a vida se torna crueldade, falência. Só uma liberdade compartilhada é uma liberdade humana; permanecendo juntos, podemos entrar na sinfonia da liberdade.
Portanto este é outro ponto de grande importância: somente aceitando o outro, aceitando também o aparente limite que deriva para a minha liberdade o respeito pela liberdade do outro, só me inserindo na rede de dependências que finalmente faz de nós uma única família, estou a caminho da libertação conjunta.
Aqui surge um elemento muito importante: qual é a medida da partilha da liberdade? Vemos que o homem tem necessidade de ordem, de direito, para que assim possa realizar-se a sua liberdade, que é uma liberdade vivida em comum. E como podemos encontrar esta ordem justa, na qual ninguém seja oprimido, mas cada qual possa oferecer a sua contribuição para formar esta espécie de concerto de liberdades? Se não há verdade comum do homem, como se manifesta na visão de Deus, permanece apenas o positivismo e tem-se a impressão de algo imposto até de maneira violenta. Daqui deriva esta revolta contra a ordem e o direito, como se se tratasse de uma escravidão.
Mas se podemos encontrar a ordem do Criador na nossa natureza, a ordem da verdade que atribui a cada um o seu lugar, ordem e direito podem ser precisamente instrumentos de liberdade contra a escravidão do egoísmo. O serviço recíproco torna-se instrumento da liberdade, e aqui poderíamos inserir toda uma filosofia da política segundo a Doutrina Social da Igreja, que nos ajuda a encontrar esta ordem conjunta que atribui a cada um o seu lugar na vida comum da humanidade. Por conseguinte, a primeira realidade a respeitar é a verdade: liberdade contra a verdade não é liberdade. O serviço recíproco cria o espaço comum da liberdade.
E depois Paulo continua dizendo: “Pois toda a lei se encerra num só preceito: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo””. Por detrás desta afirmação aparece o mistério de Deus encarnado, aparece o mistério de Cristo que na sua vida, na sua morte, na sua ressurreição se torna a lei viva. Imediatamente, as primeiras palavras da nossa Leitura “Sois chamados à liberdade” referem-se a este mistério. Fomos chamados pelo Evangelho, fomos chamados realmente no Baptismo, na participação na morte e na ressurreição de Cristo, e deste modo passamos da “carne”, do egoísmo para a comunhão com Cristo. E assim estamos na plenitude da lei.

Ama e faz o que queres
Provavelmente todos vós conheceis as bonitas palavras de Santo Agostinho: “Dilige et fac quod vis Ama e faz o que queres”. O que Agostinho diz é verdade, se compreendemos a palavra “amor”. “Ama e faz o que queres”, mas devemos entrar realmente em comunhão com Cristo, identificar-nos com a sua morte e ressurreição, estar unidos a Ele na comunhão do seu Corpo. Na participação nos sacramentos, na escuta da Palavra de Deus, realmente a vontade divina, a lei divina entra na nossa vontade, a nossa vontade identifica-se com a sua, tornando-se uma única vontade, e assim estamos realmente livres, podemos verdadeiramente fazer o que queremos, porque queremos com Cristo, queremos na verdade e com a verdade.
Portanto, peçamos ao Senhor que nos ajude neste caminho iniciado com o Batismo, um caminho de identificação com Cristo que se realiza sempre de novo na Eucaristia. Na terceira Oração eucarística, nós dizemos: “Em Cristo, tornamo-nos um só corpo e um só espírito”. É um momento em que, através da Eucaristia e mediante a nossa verdadeira participação no mistério da morte e da ressurreição de Cristo, nos tornamos um único espírito com Ele, estamos nesta identidade da vontade e assim chegamos realmente à liberdade.
Por detrás desta palavra a lei está completa por detrás desta única palavra, que se torna realidade na comunhão com Cristo, aparecem atrás do Senhor todas as figuras dos Santos que entraram nesta comunhão com Cristo, nesta unidade do ser, nesta unidade com a sua vontade. Aparece sobretudo Nossa Senhora na sua humildade, na sua bondade, no seu amor. Nossa Senhora infunde-nos esta confiança, toma-nos pela mão, guia-nos e ajuda-nos no caminho do nosso estar unidos à vontade de Deus, como Ela esteve desde o primeiro momento e expressou esta união no seu “Fiat”.
E finalmente, depois destas bonitas expressões, mais uma vez na Carta há uma referência à situação um pouco triste da comunidade dos Gálatas, quando Paulo diz: “Se vos mordeis e devorais mutuamente, vede que não acabeis por vos destruirdes totalmente uns aos outros… Caminhai segundo o Espírito”. Parece-me que nesta comunidade que já não estava mais no caminho da comunhão com Cristo, mas no da lei exterior da “carne” onde naturalmente sobressaem polémicas, e Paulo diz: “Vós tornais-vos como feras, mordendo-vos uns aos outros”. Refere-se assim às polémicas que nascem onde a fé degenera em intelectualismo, e a humildade é substituída pela arrogância de ser melhor que o outro.
Vejamos bem que também hoje existem situações semelhantes onde, em vez de se inserir na comunhão com Cristo, no Corpo de Cristo que é a Igreja, cada um quer ser superior ao outro e, com arrogância intelectual, quer fazer crer que ele é melhor. E assim nascem as polémicas que são destruidoras, nasce uma caricatura da Igreja, que deveria ser uma única alma e um só coração.
Nesta advertência de São Paulo, também hoje temos que encontrar um motivo de exame de consciência: não pensar que somos superiores ao outro, mas encontrar-nos na humildade de Cristo, encontrar-nos na humildade de Nossa Senhora e entrar na obediência da fé. É precisamente assim que deveras se abre, também para nós, o grande espaço da verdade e da liberdade no amor.

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2009/february/documents/hf_ben-xvi_spe_20090220_seminario-maggiore_po.html 

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Senhor, porque eu?

18Ele chamará para ele, aqueles que ele quiser! 
Estas palavras do papa Bento XVI se compreendem bem. De fato, Deus é absolutamente livre. Seu chamado demanda uma resposta livre de minha parte, ela não se faz segundo os critérios humanos: de qualquer forma, Deus é livre em relação ao que as pessoas irão dizer, ele é livre em relação aos meus limites (isso não quer dizer que eu os cultive ou os agrave!). Ele não escolheu como apóstolos os melhores pescadores do lago da Galiléia, nem os mais cultos; ele escolheu aqueles que ele quis.
Não se explica o amor. Porque ele? Porque ela? Se se perguntassem a noivos, eles não saberiam responder! Sim, é bom ter sido escolhido por amor, gratuitamente.
Abaixo extratos de um longo discurso do papa Bento XVI aos jovens seminaristas na JMJ em Colônia no dia 19 de agosto de 2005 quando ele mesmo respondeu a esta questão:

Sois seminaristas, isto é, jovens que se encontram num tempo forte de busca de um relacionamento pessoal com Cristo, um encontro com Ele, na perspectiva de uma importante missão na Igreja. Porque o Seminário é isto: não tanto um lugar, mas exatamente um significativo tempo da vida de um discípulo de Jesus. Imagino a ressonância que devem ter dentro de vós as palavras do tema desta XX Jornada Mundial “Viemos adorá-lo” e a comovedora narração do buscar e encontrar por parte destes Sábios. Cada um à sua maneira pensemos nos três testemunhos que acabamos de escutar, com eles, uma estrela, põe-se a caminho, deve ainda enfrentar a obscuridade e pode alcançar a meta sob a guia de Deus. Esta página evangélica sobre os Magos que buscam e encontram, reveste-se para vós de um valor singular, exatamente porque estais cumprindo o percurso de discernimento e este é o verdadeiro caminho de verificação da chamada ao sacerdócio. Gostaria de me deter para refletir convosco sobre isso.
Por que os Magos, de países longínquos, foram até Belém? A resposta está ligada ao mistério da “estrela” que eles viram “surgir” e que identificaram como a estrela do “rei dos Judeus”, ou seja, como o sinal do nascimento do Messias (cf. Mt 2, 2). Portanto, a sua viagem foi motivada pela força de uma esperança que, na estrela, obtém a sua confirmação e recebe o guia até ao “rei dos Judeus”, até à realeza do mesmo Deus. Porque é este o sentido do nosso caminho: servir a realeza de Deus no mundo. Os Magos partiram porque nutriam um grande desejo, que os levava a deixar tudo e a pôr-se a caminho. Era como se desde sempre esperassem aquela estrela. Como se aquela viagem estivesse desde sempre inscrita no seu destino, que agora finalmente se realizava. Caros amigos, é este o mistério do chamado, da vocação; mistério que abrange a vida de cada cristão, mas que se manifesta com maior evidência naqueles que Cristo convida a deixar tudo para segui-Lo mais de perto. O seminarista vive a beleza do chamado no momento que podemos definir como “enamorar-se”. O seu ânimo está cheio de admiração que lhe faz dizer na oração: Senhor, por que exatamente eu? Mas o amor não tem um “por quê”, é dom gratuito, ao qual se responde com o dom de si.
O seminário é tempo destinado à formação e ao discernimento. A formação, como bem sabeis, tem muitas dimensões, que convergem para a unidade da pessoa: ela compreende os âmbitos humano, espiritual e cultural. O seu objetivo mais profundo é fazer conhecer intimamente aquele Deus que em Jesus Cristo nos mostrou o seu rosto. Para isso, é necessário um profundo estudo da Sagrada Escritura como também da fé e da vida da Igreja, na qual a Escritura permanece como palavra viva. Tudo isto deve unir-se com os questionamentos da nossa razão e, portanto, com o contexto da vida humana de hoje. Este estudo, às vezes, pode parecer difícil, mas isso constitui uma parte insubstituível do nosso encontro com Cristo e do nosso chamado para anunciá-Lo. Tudo concorre para desenvolver uma personalidade coerente e equilibrada, capaz de assumir validamente, para depois realizar responsavelmente a missão presbiteral. O papel dos formadores é decisivo: a qualidade do presbitério numa Igreja particular depende em boa parte do seminário e, portanto, da qualidade dos responsáveis pela formação. Caros seminaristas, exatamente por isso com um vivo reconhecimento rezemos hoje por todos os vossos superiores, professores e educadores, que sentimos espiritualmente presentes neste encontro. Peçamos ao Senhor que possam desempenhar do melhor modo a tarefa tão importante a eles confiada. O seminário é tempo de caminho, de busca, mas sobretudo de descoberta de Cristo. De fato, somente na medida em que faz uma experiência pessoal de Cristo, o jovem pode compreender verdadeiramente a sua vontade e em consequência a própria vocação. Quanto mais conheceis Jesus tanto mais o seu mistério vos atrairá. Quanto mais O encontrais tanto mais estais impulsionados a procurá-Lo. É um movimento do espírito que dura toda a vida, e que encontra no seminário uma estação repleta de promessas, a sua “primavera”.
Chegados a Belém, os Magos “ao entrar na casa, viram o menino com Maria sua mãe, e prostrando-se o adoraram” (Mt 2, 11). Eis finalmente o momento tão esperado: o encontro com Jesus. “Ao entrar na casa”: esta casa representa, de certo modo, a Igreja. Para encontrar o Salvador, é preciso entrar na casa que é a Igreja. Durante o tempo de seminário na consciência do jovem seminarista acontece uma maturação particularmente significativa: ele não vê mais a Igreja “por fora”, mas a sente por assim dizer “por dentro”, como a sua “casa” porque é casa de Cristo, onde habita “Maria sua mãe”. E é exatamente a Mãe que mostra para ele Jesus, seu Filho. Ao apresentá-lo, a faz com que de certo modo ele toque nele, ele tome-o nos braços. Maria ensina-o a contemplá-lo com os olhos do coração e a viver d’Ele. Em cada momento da vida de seminário pode-se experimentar esta amável presença de Nossa Senhora, que introduz cada um ao encontro com Cristo, no silêncio da meditação, na oração e na fraternidade. Maria ajuda a encontrar o Senhor sobretudo na Celebração eucarística, quando na Palavra e no Pão consagrado Ele se faz nosso alimento espiritual quotidiano.
“E prostrando-se o adoraram… e lhe ofereceram presentes em ouro, incenso e mirra” (Mt 2, 11-12). É este o ápice de todo o itinerário: o encontro se faz adoração, conduz a um ato de fé e de amor que reconhece em Jesus, nascido de Maria, o Filho de Deus feito homem. Como não ver no gesto dos Magos a fé prefigurada de Simão Pedro e dos outros Apóstolos, a de Paulo e de todos os santos, de modo particular de santos seminaristas e sacerdotes que marcaram os dois mil anos de história da Igreja? O segredo da santidade é a amizade com Cristo e a adesão fiel à sua vontade. “Cristo é tudo para nós” dizia Santo Ambrósio; e São Bento exortava a nada antepor ao amor de Cristo. Que Cristo seja tudo para vós. A Ele, sobretudo vós, caros seminaristas, oferecei aquilo que tendes de mais precioso, como sugeria o venerado João Paulo II na sua mensagem para esta Jornada Mundial: o ouro da vossa liberdade, o incenso da vossa fervorosa oração, a mirra do vosso afeto mais profundo (cf. n. 4).
O seminário é tempo de preparação para a missão. Os Magos “voltaram” para o seu país e certamente deram testemunho do encontro com o Rei dos Judeus. Também vós, depois do longo e necessário itinerário formativo do seminário, sereis enviados para ser os ministros de Cristo; cada um de vós voltará entre as pessoas como alter Christus. Na viagem de volta, os Magos tiveram certamente que enfrentar perigos, cansaços, desânimos, dúvidas…
Não havia mais a estrela a guiá-los! Porém, a luz estava dentro deles. A eles competia protegê-la e alimentá-la na constante memória de Cristo, do seu Rosto santo, do seu Amor inefável. Caros seminaristas! Se Deus quiser, um dia também vós, consagrados pelo Espírito Santo, iniciareis a vossa missão. Recordai-vos sempre das palavras de Jesus: “Permanecei no meu amor” (Jo 15, 9). Se permanecerdes perto de Cristo, com Cristo e em Cristo, produzireis muito fruto, como Ele prometeu. Não fostes vós que o escolhestes acabamos de ouvir isto nos testemunhos, mas ele escolheu a vós (cf. Jo 15, 16). Eis o segredo da vossa vocação e da vossa missão! Ele deve ser conservado no coração imaculado de Maria, que vela com amor materno sobre cada um de vós. Recorrei frequentemente e com confiança a Maria. A todos asseguro o meu afeto e a minha oração quotidiana, enquanto vos abençoo de coração.

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2005/august/documents/hf_ben-xvi_spe_20050819_seminarians_po.html

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A liberdade da Virgem Maria

No dia 8 de dezembro de 2005, o Santo Padre o Papa Bento XVI falou do mistério do chamado de Deus e da liberdade do homem.  

maria_emanuelMas agora devemos perguntar-nos: o que significa “Maria, a Imaculada”? Este título tem algo a dizer-nos? A liturgia de hoje esclarece-nos o conteúdo desta palavra com duas imagens grandiosas.

Em primeiro lugar, há a maravilhosa narração do anúncio a Maria, a Virgem de Nazaré, da vinda do Messias. A saudação do Anjo é tecida com fios do Antigo Testamento, especialmente do profeta Sofonias. Ele faz ver que Maria, humilde mulher de província que vem de uma estirpe sacerdotal e traz em si o grande património sacerdotal de Israel, é “o santo resto” de Israel ao qual os profetas, em todos os períodos de dificuldade e de trevas, fizeram referência. Nela está presente o verdadeiro Sião, a morada pura e viva de Deus. O Senhor habita nela, e nela encontra o lugar do seu repouso. Ela é a casa viva de Deus, que não habita em edifícios de pedra, mas no coração do homem vivo. […]. Maria é o Israel santo; ela diz “sim” ao Senhor, coloca-se plenamente à sua disposição e assim torna-se o templo vivo de Deus.

A segunda imagem é muito mais difícil e obscura. Esta metáfora tirada do Livro do Génesis fala-nos de uma grande distância histórica, e somente com dificuldade pode ser esclarecida; somente durante a história foi possível desenvolver uma compreensão mais profunda daquilo que ali é mencionado. Prediz-se que durante toda a história continuará a luta entre o homem e a serpente, ou seja, entre o homem e os poderes do mal e da morte. Porém, é também prenunciado que “a estirpe” da mulher um dia vencerá e esmagará a cabeça da serpente, da morte; prenuncia-se que a linhagem da mulher e nela a mulher e a própria mãe vencerá e que assim, mediante o homem, Deus vencerá. Se, juntamente com a Igreja crente e orante, nos colocarmos à escuta diante deste texto, então poderemos começar a compreender o que é o pecado original, o pecado hereditário, e também o que é a tutela contra este pecado hereditário, o que é a redenção.

Qual é o quadro que nesta página nos é apresentado? O homem não confia em Deus. Ele tentado pelas palavras da serpente, alimenta a suspeita de que Deus, em última análise, tira algo da sua vida, que Deus é um concorrente que limita a nossa liberdade e que nós só seremos plenamente seres humanos, quando O tivermos posto de lado; em síntese, somente deste modo podemos realizar na plenitude a nossa liberdade. O homem vive na suspeita de que o amor de Deus cria uma dependência e que é necessário libertar-se desta dependência para ser plenamente ele mesmo. O homem não deseja receber de Deus a sua existência e a plenitude da sua vida. Quer extrair ele mesmo, da árvore da ciência, o poder de plasmar o mundo, de se fazer deus elevando-se ao nível d’Ele e de vencer com as próprias forças a morte e as trevas. Não quer contar com o amor, que não lhe parece confiável; ele conta unicamente com a ciência, dado que ela lhe confere o poder.

Em vez de visar o amor, tem como objetivo o poder com que deseja ter nas suas mãos, de modo autônomo, a própria vida. E ao fazê-lo, confia na mentira e não na verdade, e assim mergulha com a sua vida no vazio, na morte. Amor não é dependência, mas dom que nos faz viver. A liberdade de um ser humano é a liberdade de um ser limitado e, portanto, ela mesma é limitada. Só a podemos possuir como liberdade compartilhada, na comunhão das liberdades: a liberdade pode desenvolver-se unicamente se vivermos do modo justo uns com os outros, e uns para os outros.

Nós vivemos do modo justo, se vivermos segundo a verdade do nosso ser, ou seja, segundo a vontade de Deus. Porque a vontade de Deus não é para o homem uma lei imposta a partir de fora, que o obriga, mas a medida intrínseca da sua natureza, uma medida que está inscrita nele e que o torna imagem de Deus e, assim, criatura livre. Se nós vivermos contra o amor, contra a verdade e contra Deus então destruir-nos-emos uns aos outros e aniquilaremos o mundo. Então, não encontraremos a vida, mas defenderemos o interesse da morte. Tudo isto é narrado com as imagens imortais na história do pecado original e da expulsão do homem do Paraíso terrestre.

Estimados irmãos e irmãs! Se refletirmos sinceramente sobre nós mesmos e sobre a nossa história, devemos dizer que com esta narração se descreve não só a história do princípio, mas a história de todos os tempos, e que todos trazemos dentro de nós próprios uma gota do veneno daquele modo de pensar explicado nas imagens do Livro da Génesis. A esta gota de veneno, chamamos pecado original. Precisamente na festa da Imaculada Conceição manifesta-se em nós a suspeita de que uma pessoa que não peque de modo algum, no fundo, seja tediosa; que falte algo na sua vida: a dimensão dramática do ser autônomo; que faça parte do verdadeiro ser homem, a liberdade de dizer não, o descer às trevas do pecado e o desejar realizar sozinho; que somente então seja possível desfrutar até ao fim toda a vastidão e a profundidade do nosso ser homens, do ser verdadeiramente nós mesmos; que devemos pôr à prova esta liberdade também contra Deus, para nos tornarmos realmente nós próprios. Em síntese, pensamos que o mal no fundo seja bem, que dele temos necessidade, pelo menos um pouco, para experimentar a plenitude do ser. Julgamos que Mefistófeles o tentador tem razão, quando diz que é a força “que deseja sempre o mal e realiza sempre o bem” (J.W. v. Goethe, Fausto I, 3). Pensamos que pactuar com o mal, reservando para nós mesmos um pouco de liberdade contra Deus, em última análise, possa ser um bem, talvez até necessário.

Contudo, quando olhamos para o mundo à nossa volta, podemos ver que não é assim, ou seja, que o mal envenena sempre, que não eleva o homem, mas o rebaixa e humilha, que não o enobrece, não o torna mais puro nem mais rico, mas o prejudica e faz com que se torne menor. É sobretudo isto que devemos aprender no dia da Imaculada: o homem que se abandona totalmente nas mãos de Deus não se torna um fantoche de Deus, nem uma pessoa conscientemente enfadonha; o homem não perde a sua liberdade. Somente o homem que confia totalmente em Deus encontra a verdadeira liberdade, a grande e criativa vastidão da liberdade do bem. O homem que recorre a Deus não se torna menor, mas maior, porque graças a Deus e juntamente com Ele se torna grande, divino, verdadeiramente ele mesmo. O homem que se coloca nas mãos de Deus não se afasta dos outros, retirando-se na sua salvação particular; pelo contrário, só então o seu coração desperta verdadeiramente e ele torna-se uma pessoa sensível e por isso benévola e aberta.

Quanto mais próximo de Deus o homem está, tanto mais próximo está dos homens. Vemo-lo em Maria. O fato Dela estar totalmente junto de Deus é a razão pela qual se encontra também próxima dos homens. Por isso, pode ser a Mãe de toda a consolação e de toda a ajuda, uma Mãe à qual, em qualquer necessidade, todos podem dirigir-se na própria debilidade e no próprio pecado, porque Ela tudo compreende e para todos constitui a força aberta da bondade criativa. É nela que Deus imprime a sua própria imagem, a imagem daquele que vai à procura da ovelha perdida, até às montanhas e até ao meio dos espinhos e das sarças dos pecados deste mundo, deixando-se ferir pela coroa de espinhos destes pecados, para salvar a ovelha e para a reconduzir a casa. Como Mãe que se compadece, Maria é a figura antecipada e o retrato permanente do Filho. E assim vemos que também a imagem da Virgem das Dores, da Mãe que compartilha o sofrimento e o amor, é uma verdadeira imagem da Imaculada. Mediante o ser e o sentir juntamente com Deus, o seu coração alargou-se. Nela a bondade de Deus aproximou-se e aproxima-se muito de nós. Assim, Maria está diante de nós como sinal de consolação, de encorajamento e de esperança. Ela dirige-se a nós, dizendo: “Tem a coragem de ousar com Deus! Tenta! Não tenhas medo d’Ele! Tem a coragem de arriscar com a fé! Tem a coragem de arriscar com a bondade!

Tem a coragem de arriscar com o coração puro! Compromete-te com Deus, e então verás que precisamente assim a tua vida se há de tornar ampla e iluminada, não tediosa, mas repleta de surpresas infinitas, porque a bondade infinita de Deus jamais se esgota!”.

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2005/documents/hf_ben-xvi_hom_20051208_anniv-vat-council_po.html

 

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É preciso saber fazer as opções necessárias

Queridos amigos, quando se apresenta no horizonte da existência esta resposta é preciso saber fazer as opções necessárias. É como quando nos encontramos numa encruzilhada: que caminho empreender? O que é sugerido pelas paixões ou o que é indicado pela estrela que brilha na consciência? Os Magos, ao ouvir a resposta: “Em Belém da Judéia, pois assim foi escrito pelo profeta” (Mt 2, 5), escolheram prosseguir o caminho e ir até ao fundo, iluminados por esta palavra. De Jerusalém foram a Belém, isto é, da palavra que lhes indicava onde estava o Rei dos Judeus que procuravam até ao encontro com aquele Rei que era ao mesmo tempo o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. Aquela palavra também nos é dita a nós. Também nós devemos fazer a nossa opção. […]

Podemos imaginar a admiração dos Magos diante do Menino envolvido em panos! Só a fé lhes permitiu reconhecer nas feições daquele menino o Rei que procuravam, o Deus para o qual a estrela os tinha orientado. N’Ele, preenchendo o abismo entre o finito e o infinito, entre o visível e o invisível, o Eterno entrou no tempo, o Mistério revelou-se entregando-se a nós nos membros frágeis de um pequeno menino. “Os Magos estão admirados diante do que veem; o céu sobre a terra e a terra no céu; o homem em Deus e Deus no homem; veem contido num corpo pequenino quem não pode ser contido por todo o mundo” (São Pedro Crisólogo, Sermão 160, n. 2). […]

Queridos jovens, a felicidade que procurais, a felicidade que tendes o direito de saborear tem um nome, um rosto: o de Jesus de Nazaré, oculto na Eucaristia. Só ele dá plenitude de vida à humanidade! Com Maria, dizei o vosso “sim” àquele Deus que deseja oferecer-se a vós. Repito-vos hoje o que disse no início do meu pontificado: “Quem faz entrar Cristo [na própria vida] nada perde, nada absolutamente nada do que torna a vida livre, bela e grande. Não, só nesta amizade se abrem de par em par as portas da vida. Só nesta amizade desabrocham realmente as grandes potencialidades da condição humana. Só nesta amizade nós experimentamos o que é belo e o que liberta” (Homilia para o início do ministério de Supremo Pastor, 24 de Abril de 2005). Disto estais plenamente convictos: Cristo de nada vos priva do que tendes em vós de belo e de grande, mas tudo leva à perfeição para glória de Deus, a felicidade dos homens e a salvação do mundo.

Nestes dias convido-vos a comprometer-vos sem reservas a servir Cristo, custe o que custar. O encontro com Jesus Cristo permitir-vos-á saborear interiormente a alegria da sua presença viva e vivificante para depois a testemunhar à nossa volta.

Bento XVI, JMJ de Colônia, 18 Agosto 2005

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2005/august/documents/hf_ben-xvi_spe_20050818_youth-celebration_po.html

 

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A vida como vocação

Papa João Paulo II
Vaticano, 14 de setembro de 2000

Venerados Irmãos no Episcopado e caríssimos Irmãos e Irmãs do mundo inteiro!
1. O próximo “Dia Mundial de Oração pelas Vocações”, que será celebrado no dia 06 de maio de 2001, portanto a poucos meses do encerramento do Grande Jubileu, terá como tema “A vida como vocação”. Com esta minha Mensagem, desejo refletir convosco sobre um assunto de indiscutível importância na vida cristã.

A palavra “vocação” qualifica muito bem a relação de Deus com cada ser humano, na liberdade do amor, porque “toda vida é vocação” (Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio, 15). Terminada a criação, Deus contempla o homem e vê que é “coisa muito boa” (cf Gn 1,31): ele o fez “à sua imagem e semelhança”, confiou às suas mãos o universo e chamou-o a uma íntima relação de amor.

Vocação é a palavra que introduz na compreensão dos dinamismos da revelação de Deus, e assim desvela ao homem a verdade sobre a sua existência. No documento conciliar Gaudium et spes lemos que “A razão mais elevada da dignidade do homem consiste na sua vocação para a comunhão com Deus. Desde o seu nascimento, o homem é convidado ao diálogo com Deus: de fato, ele não existe senão porque, criado por Deus, por amor, é por Ele conservado, sempre por amor, nem vive plenamente e conforme a verdade, se não o reconhece livremente e não se entrega ao seu Criador” (n. 19). É nesse diálogo de amor com Deus que se alicerça a possibilidade que cada pessoa tem de crescer segundo linhas e características próprias, que lhe foram dadas, e capazes de “dar sentido” à sua história e às relações fundamentais de seu existir quotidiano, enquanto está a caminho da plenitude da vida.
2. Considerar a vida como vocação facilita a liberdade interior, estimulando na pessoa o desejo de futuro, juntamente com a rejeição de uma concepção passiva, aborrecida e banal da existência. A vida assume assim o valor de “dom recebido, que tende, por sua natureza, a se tornar bem doado” (Doc. Novas vocações para uma nova Europa, 1998, 16,b). O homem demonstra ter renascido no Espírito (cf Gn 3,3.5), quando aprende a seguir a via do mandamento novo: “que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei” (Jo 15,12). Pode-se afirmar que, em certo sentido, o amor é o DNA dos filhos de Deus; é “a vocação santa” com que fomos chamados “em virtude do seu desígnio e graça que nos foi dada em Jesus Cristo desde os tempos eternos, e que agora se manifestou com a aparição do nosso Salvador Jesus Cristo” (2Tm 1,9-10).

Na origem de todo caminho vocacional está o Emanuel, o Deus-conosco. Ele nos revela que não estamos construindo sozinhos a nossa vida, porque Deus caminha conosco em meio às nossas sucessivas mudanças e, se nós o quisermos, tece com cada um uma maravilhosa história de amor, única e irrepetível e, ao mesmo tempo, em harmonia com a humanidade e com o cosmo inteiro. Descobrir a presença de Deus na própria história, não mais sentir-se órfão, mas estar certo de ter um Pai ao qual pode entregar-se completamente: essa é a grande virada que transforma o horizonte simplesmente humano e leva o homem a entender – como afirma a Gaudium et spes – que ele não pode “encontrar-se plenamente, a não ser no dom sincero de si” (n. 24). Nessas palavras do Concílio Vaticano II, encerra-se o segredo da existência cristã e de toda autêntica realização humana.

3. Hoje, porém, essa leitura cristã da existência se choca com alguns traços característicos da cultura ocidental, em que Deus é praticamente marginalizado da vida quotidiana. Por isso, é necessário um empenho da inteira comunidade cristã, para “re-evangelizar a vida“. Para esse fundamental empenho é indispensável o testemunho de homens e de mulheres que mostrem a fecundidade de uma existência que tem em Deus a sua fonte, na docilidade à ação do Espírito a sua força e, na comunhão com Cristo e com a Igreja, a garantia do sentido autêntico da fadiga quotidiana. É preciso que na comunidade cristã cada qual descubra a sua vocação pessoal e responda com generosidade. Toda vida é vocação, e todo crente é convidado a cooperar para a edificação da Igreja. No entanto, no “Dia Mundial de Oração pelas Vocações”, a nossa atenção se volta de modo especial para a necessidade e urgência de ministros ordenados e de pessoas dispostas a seguir Cristo na via exigente da vida consagrada na profissão dos conselhos evangélicos.

Precisamos de ministros ordenados que sejam “garantia permanente da presença sacramental de Cristo Redentor, nos diversos tempos e lugares” (Christifideles laici, 55) e, com a pregação da Palavra e a celebração da Eucaristia e dos outros Sacramentos, guiem as Comunidades cristãs pelos caminhos da vida eterna.

Precisamos de homens e mulheres que, com seu testemunho, conservem “viva nos batizados a consciência dos valores fundamentais do Evangelho” e façam “emergir na consciência do Povo de Deus a exigência de responder com a santidade de vida ao amor de Deus derramado em seus corações pelo Espírito Santo, refletindo na própria conduta a consagração sacramental produzida pela ação de Deus no Batismo, na Crisma e na Ordem” (Vita consecrata 33).

Possa o Espírito Santo suscitar numerosas vocações de especial consagração, para que estimulem no povo cristão uma adesão sempre mais generosa ao Evangelho e tornem mais fácil a todos a compreensão do sentido da existência como transparência da beleza e da santidade de Deus.

4. Meu pensamento vai agora aos muitos jovens sedentos de valores e, muitas vezes, incapazes de encontrar o caminho que leva a eles. Sim, somente Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida. E, por isso, é necessário fazer com que os jovens encontrem o Senhor, e ajudá-los a estabelecer com Ele uma relação profunda. Jesus deve entrar no mundo deles, assumir a sua história e abrir-lhes o coração, para que aprendam a conhecê-lo sempre mais, à medida que seguem as pegadas do seu amor.

A respeito disso, eu penso no importante papel dos Pastores do Povo de Deus. A eles eu recordo as palavras do Concílio Vaticano II: “Os presbíteros, em primeiro lugar, se empenhem – com o ministério da Palavra e o próprio testemunho de uma vida em que se reflita claramente o espírito de serviço e a verdadeira alegria pascal – em fazer com que os fiéis conheçam a excelência e a necessidade do sacerdócio… Para isso, é muito útil uma atenta e prudente direção espiritual… Porém, atenção para que essa voz do Senhor não seja absolutamente esperada como se devesse chegar de forma extraordinária aos ouvidos do futuro presbítero. Ela precisa ser reconhecida e examinada através daqueles sinais de que todos os dias o Senhor se serve para fazer com que os cristãos prudentes entendam a sua vontade; e cabe aos presbíteros estudar atentamente esses sinais” (Presbyterorum ordinis, 11).

Penso também nos consagrados e nas consagradas, chamados a testemunhar que em Cristo está a nossa única esperança; somente dele é possível emergir a energia para viver as suas escolhas de vida; somente com Ele é possível ir ao encontro das profundas necessidades que a humanidade tem de salvação. Que a presença e o serviço das pessoas consagradas possam abrir o coração e a mente dos jovens para horizontes de esperança, cheios de Deus, e os eduque para a humildade e a gratuidade de amar e de servir. Que a significação eclesial e cultural de sua vida consagrada se traduza sempre melhor em propostas pastorais específicas, aptas a educar e formar os jovens e as jovens para a escuta do chamado do Senhor e para a liberdade do espírito, a fim de responder com generosidade e entusiasmo.

5. Dirijo-me agora a vós, queridos pais cristãos, para exortar-vos a estarem junto de vossos filhos. Não os deixeis sozinhos diante das grandes escolhas da adolescência e da juventude. Ajudai-os a não se deixarem dominar pela busca ansiosa do bem-estar, e guiai-os na direção da autêntica alegria, a do espírito. Fazei ressoar no coração deles, às vezes invadidos pelo medo do futuro, a alegria libertadora da fé. Educai-os, como escrevia o meu venerado predecessor, o Servo de Deus Paulo VI, “para saborearem simplesmente as múltiplas alegrias humanas que o Criador já coloca em seu caminho: alegria exultante da existência e da vida; alegria do amor casto e santificado; alegria pacificadora da natureza e do silêncio; alegria, às vezes austera, do trabalho cuidadoso; alegria e satisfação do dever cumprido; alegria transparente da pureza, do serviço, da participação; alegria exigente do sacrifício” (Gaudete in Domino, I).

Sejam suporte à ação da família, a ação dos catequistas e dos professores cristãos, chamados de modo especial a promover nos jovens o sentido da vocação. A tarefa deles é orientar as novas gerações para a descoberta do projeto de Deus sobre cada um, cultivando neles a disponibilidade a fazer da própria vida – quando Deus chama – um dom para a missão. Isso acontecerá através de escolhas progressivas que preparam para o “sim” total, em força do qual a existência inteira é colocada a serviço do Evangelho. Queridos catequistas e professores, para conseguir isso, ajudai os adolescentes que vos são confiados a olhar para o alto, a fugir da constante tentação de servir a dois senhores. Educai-os para a confiança naquele Deus que é Pai e mostra a extraordinária grandeza de seu amor, confiando a cada um uma tarefa pessoal a serviço da grande missão de “renovar a face da terra”.

6. No livro dos Atos dos Apóstolos lemos que os primeiros cristãos “perseveravam na doutrina dos apóstolos, nas reuniões em comum, na fração do pão e nas orações” (2,42). Todo encontro com a Palavra de Deus é um momento feliz para a proposta vocacional. A intimidade das Sagradas Escrituras ajuda a entender o estilo e os gestos com os quais Deus escolhe, chama, educa e faz participante do seu amor.

A celebração da Eucaristia e a oração fazem entender melhor as palavras de Jesus: “A messe é grande, mas os operários são poucos! Rogai, pois, ao Senhor da messe que envie operários!” (Mt 9,37-38; cf Lc 10,2). Rezando pelas vocações aprende-se a olhar com sabedoria evangélica o mundo e as necessidades de vida e de salvação de todo ser humano; além disso, vive-se a caridade e a compaixão de Cristo para com a humanidade, e se alcança a graça de poder dizer, seguindo o exemplo da Virgem: “Eis-me aqui, sou a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).

Do Vaticano, 14 de setembro de 2000.

 

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Deus espera o nosso Sim

O Onipotente aguarda o “sim” das suas criaturas como um jovem esposo o da sua esposa

Bento XVI,
Vaticano, 21 de Novembro de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Jesus_EmanuelHão de olhar para Aquele que trespassaram” (Jo 19, 37). Este é o tema bíblico que guia este ano a nossa reflexão quaresmal. A Quaresma é tempo propício para aprender a deter-se com Maria e João, o discípulo predileto, ao lado d’Aquele que, na Cruz, cumpre pela humanidade inteira o sacrifício da sua vida (cf. Jo 19, 25). Portanto, dirijamos o nosso olhar com participação mais viva, neste tempo de penitência e de oração, para Cristo crucificado que, morrendo no Calvário, nos revelou plenamente o amor de Deus. Detive-me sobre o tema do amor na Encíclica Deus caritas est, pondo em realce as suas duas formas fundamentais: o agape e o eros.

O amor de Deus: agape e eros

A palavra ágape, muitas vezes presente no Novo Testamento, indica o amor oblativo de quem procura exclusivamente o bem do próximo; a palavra eros denota, ao contrário, o amor de quem deseja possuir o que lhe falta e anseia pela união com o amado. O amor com o qual Deus nos circunda é sem dúvida ágape. De fato, pode o homem dar a Deus algo de bom que Ele já não possua? Tudo o que a criatura humana é e possui é dom divino, portanto é a criatura que tem necessidade de Deus em tudo. Mas o amor de Deus é também eros. No Antigo Testamento o Criador do universo mostra para com o povo que escolheu uma predileção que transcende qualquer motivação humana. O profeta Oséias expressa esta paixão divina com imagens audazes, como a do amor de um homem por uma mulher adúltera (cf. 3, 1-3); Ezequiel, por seu lado, falando do relacionamento de Deus com o povo de Israel, não receia utilizar uma linguagem fervorosa e apaixonada (cf. 16, 1-22). Estes textos bíblicos indicam que o eros faz parte do próprio coração de Deus: o Onipotente aguarda o “sim” das suas criaturas como um jovem esposo o da sua esposa. Infelizmente desde as suas origens a humanidade, seduzida pelas mentiras do Maligno, fechou-se ao amor de Deus, na ilusão de uma impossível autossuficiência (cf. Gn 3, 1-7). Fechando-se em si mesmo, Adão afastou-se daquela fonte de vida que é o próprio Deus, e tornou-se o primeiro daqueles “que, pelo temor da morte, estavam toda a vida sujeitos à escravidão” (Hb 2, 15). Deus, contudo, não se deu por vencido, aliás o “não” do homem foi como que o estímulo decisivo que o levou a manifestar o seu amor em toda a sua força redentora.

A Cruz revela a plenitude do amor de Deus

É no mistério da Cruz que se revela plenamente o poder irresistível da misericórdia do Pai Celeste. Para reconquistar o amor da sua criatura, Ele aceitou pagar um preço elevadíssimo: o sangue do seu Filho Unigênito. A morte, que para o primeiro Adão era sinal extremo de solidão e de incapacidade, transformou-se assim no ato supremo de amor e de liberdade do novo Adão. Pode-se então afirmar, com São Máximo, o Confessor, que Cristo “morreu, se assim se pode dizer, divinamente, porque morreu livremente” (Ambígua, 91, 1056). Na Cruz manifesta-se o eros de Deus por nós. Eros é de fato como se expressa o Pseudo-Dionísio aquela “força que não permite que o amante permaneça em si mesmo, mas o estimula a unir-se ao amado” (De divinis nominibus, IV, 13: PG 3, 712). Qual “eros mais insensato” (N. Cabasilas, Vita in Cristo, 648) do que aquele que levou o Filho de Deus a unir-se a nós até ao ponto de sofrer como próprias, as consequências dos nossos delitos?

Aquele que trespassaram

Queridos irmãos e irmãs, olhemos para Cristo trespassado na Cruz! É Ele a revelação mais perturbadora do amor de Deus, um amor onde eros e agape, longe de se contraporem, se iluminam reciprocamente. Na Cruz é o próprio Deus que mendiga o amor da sua criatura: Ele tem sede do amor de cada um de nós. O apóstolo Tomé reconheceu Jesus como “Senhor e Deus” quando colocou o dedo na ferida do seu lado. Não surpreende que, entre os santos, muitos tenham encontrado no Coração de Jesus a expressão mais comovedora deste mistério de amor. Poder-se-ia até dizer que a revelação do eros de Deus ao homem é, na realidade, a expressão suprema do seu agape. Na verdade, só o amor no qual se unem o dom gratuito de si e o desejo apaixonado de reciprocidade infunde um enlevo que torna leves os sacrifícios mais pesados. Jesus disse: “E Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim” (Jo 12, 32). A resposta que o Senhor deseja ardentemente de nós é antes de tudo que acolhamos o seu amor e nos deixemos atrair por Ele. Mas aceitar o seu amor não é suficiente. É preciso corresponder a este amor e comprometer-se depois a transmiti-lo aos outros: Cristo “atrai-me para si” para se unir comigo, para que eu aprenda a amar os irmãos com o seu mesmo amor.

Sangue e água

Hão de olhar para Aquele que trespassaram“. Olhemos com confiança para o lado trespassado de Jesus, do qual brotam “sangue e água” (Jo 19, 34)! Os Padres da Igreja consideraram estes elementos como símbolos dos sacramentos do Batismo e da Eucaristia. Com a água do Batismo, graças à ação do Espírito Santo, abre-se para nós a intimidade do amor trinitário. No caminho quaresmal, recordando o nosso Batismo, somos exortados a sair de nós próprios e a abrir-nos, num abandono confiante, ao abraço misericordioso do Pai (cf. São João Crisóstomo, Catechesi, 3, 14 ss.). O sangue, símbolo do amor do Bom Pastor, flui em nós especialmente no mistério eucarístico: “A Eucaristia atrai-nos para o ato oblativo de Jesus… somos envolvidos na dinâmica da sua doação” (Enc. Deus caritas est, 13). […]. Maria, a Mãe do Belo Amor, nos guie neste itinerário quaresmal, caminho de conversão autêntica ao amor de Cristo. Desejo a vós, queridos irmãos e irmãs, um caminho quaresmal proveitoso, enquanto com afeto envio a todos uma especial Bênção Apostólica.

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/lent/documents/hf_ben-xvi_mes_20061121_lent-2007_po.html

 

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Meus pais se opõem a minha vocação; O que fazer?

doc1O Catecismo da Igreja Católica (§1656) relembra que é no seio da família que os pais são « por palavras e por exemplo … para seus filhos os primeiros anunciadores da fé, no serviço da vocação própria de cada um e muito especialmente a vocação sagrada »
Como reagir se ao anuncio da tua vocação sacerdotal, eles se declaram opor? Nada fácil…

A primeira coisa é os escutar, pois em sua missão educativa, eles provavelmente estimam que você deve nutrir ainda tua decisão, ou terminar um ciclo de estudos, o que não é necessariamente algo sem sabedoria…

Em seguida, é necessário compreender a eventual dificuldade deles em aceitar tua vocação se ela se confirme. Com efeito, em todas as vocações, há uma renúncia, para aquele que faz a escolha e para aqueles que o cercam. Renunciar as vezes os estudos, uma carreira e para os pais, há a renúncia dos netos, renúncia da transmissão de um nome, renúncia a todas as belas ideias de sucesso que previram para seu filho.

Normalmente, esta desestabilização é mais forte para uma vocação consagrada feminina ou masculina, que por uma vocação de padre (por causa da beleza do sacerdócio e da áurea de um padre). Então, normalmente mais forte para um monge que para um padre. Que desperdício, um menino tão bonito…

No entorno há também a reação dos irmãos e irmãs. Como reagiram eles?
A maior parte do tempo muito bem. Há sem dúvida especificidades para gêmeos e em casos de muitas vocações numa mesma família.

Enfim, é necessário aceitar um intervalo de tempo entre a tua percepção da tua vocação e a percepção da vocação de pais de consagrados para teus pais. Os pais de consagrados tem uma vocação de consagrados, mas eles só tomam consciência disso mais tarde.
Viver tudo isso na oração…

Como Santa Terezinha do Menino Jesus anunciou sua vocação
a seu pai?

A grande confidência Extraída da História de uma Alma 49 v° et 50r°

doc2(Minha irmã) Celine se torna então a confidente de minhas lutas e meus sofrimentos, ela assumiu como se tratasse de sua própria vocação; pelo seu lado eu não tinha medo da oposição, mas eu não sabia que meio utilizar para anunciar ao papai…

Como lhe falar de deixar sua rainha, ele que já sacrificou suas três mais velhas? Ah! Que lutas intimas eu lutei antes de sentir coragem de lhe falar!! Contudo era necessário me decidir, eu já tinha catorze anos e meio, seis meses apenas nos separavam ainda da bela noite de Natal que eu tinha decidido entrar. Na mesma hora em que no ano precedente eu havia recebido « minha graça ». Para fazer minha grande confidencia eu escolhi o dia de Pentecostes. Durante todo o dia eu supliquei aos Santos Apóstolos que rezassem por mim, que me inspirassem as palavras que eu iria dizer. (…). Apenas a tarde voltando das vésperas que eu encontrei a ocasião de falar a meu pequeno querido Pai; ele estava sentado na borda da cisterna, e lá as mãos juntas, ele contemplava as maravilhas da natureza (…) A bela figura de Papai tinha uma expressão celeste, eu sentia que a paz inundava seu coração, sem dizer uma só palavra eu me sentei ao seu lado, os olhos já molhados de lágrimas, ele me olha com ternura e pegou minha cabeça e a apoiou sobre seu coração, me dizendo : « Que há minha pequena rainha ?… Conte-me o que há… » depois se levantou como para dissimular sua própria emoção, ele caminhava lentamente, tendo o tempo todo minha cabeça sobre seu coração.
Através de minhas lagrimas eu lhe confiei meu desejo de entrar no Carmelo, então suas lágrimas se misturaram com as minhas, mas ele não disse nenhuma palavra para me desviar de minha vocação. Contentou-se simplesmente de me fazer notar que eu era ainda bem jovem para tomar uma decisão assim grave. Mas eu defendi bem minha causa, então, com sua natureza simples e direita, papai logo foi convencido de que o meu desejo era o do próprio Deus e na sua profunda fé clamou que o Bom Deus lhe fazia uma grande honra de lhe pedir assim seus filhos. Nós continuamos longo tempo nosso passeio, meu coração aliviado pela bondade com a qual meu incomparável pai havia acolhido estas confidencias, penso que meu alívio fluiu docemente no seu. Papai parecia desfrutar desta alegria tranquila que dá o sacrifício feito, ele falava como um santo.

 

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Cristo não tira nada, Ele dá tudo

doc1“Queridos Jovens: Não tenhais medo de Cristo! Ele não tira nada, Ele dá TUDO”. Papa Bento XVI 24/04/2005.

“Queridos jovens, a felicidade que procurais, a felicidade que tendes o direito de saborear tem um nome, um rosto: o de Jesus de Nazaré” Papa Bento XVI 18/08/2005, em Colônia, festa de acolhimento dos jovens.

“Só na Igreja é possível ser cristão, não ao lado da Igreja.” – Papa Bento XVI, na Conferência que pronunciou perante a Academia Católica Bávara.

“A Igreja precisa de vós, como jovens, para manifestar ao mundo o rosto de Jesus Cristo” – Papa Bento XVI aos jovens no encontro no Pacaembu, SP, em 10/05/ 2007.
“A Igreja precisa de vós, e vós precisais da Igreja” – Papa Bento XVI, na Jornada Mundial da Juventude de Madri, em 2011.

“Não anunciamos teorias nem opiniões privadas, mas a fé da Igreja da qual somos servidores.” Papa Bento XVI, em 5/04/2012.

“Queridos Jovens, não passeis ao largo quando virdes o sofrimento humano, pois é aí que Deus vos espera para dardes o melhor de vós mesmos: a vossa capacidade de amar e de vos compadecerdes” – Papa Bento XVI, na Via Sacra com os Jovens, JMJ Madri, 19/08/2011.
“Queridos amigos, que nenhuma dificuldade vos paralise: Não tenhais medo do mundo, nem do futuro, nem da vossa fraqueza. O Senhor concedeu-vos viver neste momento da história, repleto de grandes possibilidades e oportunidades, para que, graças à vossa fé, continue a ressoar o nome de Cristo em toda a terra.” – Papa Bento XVI, em Homilia na vigília de oração com os Jovens, JMJ Madri, 19/08/2011.

‎”Os senhores cardeais elegeram a mim, um simples humilde trabalhador da vinha do Senhor. Consola-me o fato de que o Senhor sabe trabalhar e atuar com instrumentos insuficientes.” – Papa Bento XVI, na sua primeira declaração ao público, depois de eleito Papa, 19/04/2005.

“Vivamos a nossa vida como verdadeiros adoradores de Deus!” – Papa Bento XVI, JMJ Colônia, 21/08/ 2005

 

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“Gostaria que compreendessem a beleza de serem cristãos” (Bento XVI)
Durante o inesquecível encontro de boas-vindas da JMJ de 2000, em Roma, João Paulo II perguntava aos jovens: “Que viestes buscar? A quem viestes buscar? ” Eram as palavras apaixonadas de um homem idoso, mas que amava com um coração jovem e era capaz de contagiar outros jovens com o amor a Cristo. As JMJ sempre foram isto: moças e rapazes de todo o mundo que vêm ter com o Papa, procurando Cristo. Desse encontro pessoal com o Senhor dependem coisas grandes para a vida de cada uma, de cada um; grandes coisas, também para a vida da Igreja inteira e da sociedade.

Ao inaugurar o seu pontificado, Bento XVI proclamou que a Igreja é jovem, que a Igreja está viva. A Igreja está viva – disse – porque Cristo vive. A história “grande” da Igreja realiza-se nas histórias “pessoais” de amizade com Jesus Cristo, “só com esta amizade — diz-nos o Papa — é que se abrem as portas da vida. Só com essa amizade abrem-se realmente as grandes potencialidades da condição humana. Só com essa amizade experimentamos o que é belo e o que nos liberta”. Vamos a Colônia com o desejo de voltar a saborear a perene juventude da Igreja, que se mantém graças à amizade com Jesus Cristo.

Durante a JMJ percebe-se que algo germina, que nasce uma nova planta. Nas mulheres e nos homens de hoje — ainda mais nos jovens —, há uma grande sede de esperança, sonhos de felicidade, ânsias de sentido, desejos de encontrar alguma coisa pela qual valha a pena dar a vida. E, ao mesmo tempo, há dúvidas, rebeldia perante a injustiça, consciência da própria fraqueza, às vezes medo. Anseios que encontram em Cristo a sua resposta; sombras que se desvanecem com a Sua luz.

 

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A vocação missionaria: coleção de textos

DECRETO AD GENTES
SOBRE A ATIVIDADE MISSIONÁRIA DA IGREJA

Desígnio do Pai

2. A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que tem a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na «missão» do Filho e do Espírito Santo (6).
Este desígnio brota do «amor fontal», isto é, da caridade de Deus Pai, que, sendo o Princípio sem Princípio de quem é gerado o Filho e de quem procede o Espírito Santo pelo Filho, quis derramar e não cessa de derramar ainda a bondade divina, criando-nos livremente pela sua extraordinária e misericordiosa benignidade, e depois chamando-nos gratuitamente a partilhar da sua própria vida e glória. Quis ser, assim, não só criador de todas as coisas, mas também «tudo em todas as coisas» (1 Cor. 15,28), conseguindo simultaneamente a sua glória e a nossa felicidade. Aprouve, porém, a Deus chamar os homens a esta participação na sua vida, não só de modo individual e sem qualquer solidariedade mútua, mas constituindo-os num Povo em que os seus filhos, que estavam dispersos, se congregassem em unidade.

A Igreja enviada de Cristo

5. O Senhor Jesus, logo desde o princípio «chamou a Si alguns a quem Ele quis, e escolheu doze para andarem com Ele e para os mandar a pregar» (Mc. 3,13) (28). Os Apóstolos foram assim a semente do novo Israel e ao mesmo tempo a origem da sagrada Hierarquia. Depois, realizados já definitivamente em Si, pela sua morte e ressurreição, os mistérios da nossa salvação e da renovação do universo, o Senhor, com todo o poder que adquiriu no céu e na terra (29), antes de subir ao Céu (30) fundou a sua Igreja como sacramento de salvação e enviou os seus Apóstolos a todo o mundo tal qual Ele também tinha sido enviado pelo Pai (31), dando-lhes este mandato: «Ide, pois, fazei discípulos de todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo quanto vos prescrevi» (Mt. 28, 19-20). «Ide por todo o mundo, proclamai a Boa Nova a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado, será salvo; mas quem não acreditar, será condenado» (Mc. 16,15 ss.). Daí vem à Igreja o dever de propagar a fé e a salvação de Cristo, tanto em virtude do expresso mandamento que dos Apóstolos herdou a Ordem dos Bispos ajudada pelos presbíteros em união com o sucessor de Pedro e sumo pastor da Igreja, como em virtude da vida comunicada aos seus membros por Cristo, «do qual o corpo todo inteiro bem ajustado e coeso por toda a espécie de junturas que o alimentam, com a ação proporcionada a cada membro, realiza o seu crescimento em ordem à própria edificação na caridade» (Ef. 4,16). A missão da Igreja realiza-se pois, mediante a atividade pela qual, obedecendo ao mandamento de Cristo e movida pela graça e pela caridade do Espírito Santo, ela se torna atual e plenamente presente a todos os homens ou povos para os conduzir à fé, liberdade e paz de Cristo, não só pelo exemplo de vida e pela pregação, mas também pelos sacramentos e pelos restantes meios da graça, de tal forma que lhes fique bem aberto caminho livre e seguro para participarem plenamente no mistério de Cristo.
Continuando esta missão e explicitando através da história a missão do próprio Cristo, que foi enviado a evangelizar os pobres, a Igreja, movida pelo Espírito Santo, deve seguir o mesmo caminho de Cristo: o caminho da pobreza, da obediência, do serviço e da imolação própria até à morte, morte de que Ele saiu vencedor pela sua ressurreição. Foi assim também que todos os Apóstolos caminharam na esperança completando com muitas tribulações e fadigas o que faltava aos trabalhos de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja (32). Muitas vezes, mesmo, a semente foi o sangue dos cristãos (33).

Atividade missionária da Igreja na vida e na história humana

8. Também com a própria natureza humana e suas aspirações tem íntima conexão a atividade missionária. Com efeito, ao dar a conhecer Cristo, a Igreja revela, por isso mesmo, aos homens a genuína verdade da sua condição e da sua integral vocação, pois Cristo é o princípio e o modelo da humanidade renovada e imbuída de fraterno amor, sinceridade e espírito de paz, à qual todos aspiram.
Cristo e a Igreja que d’Ele dá testemunho pela pregação evangélica, transcendem todos os particularismos de estirpe ou de nação e, por isso, não podem ser considerados estranhos a ninguém e em nenhuma parte (44). É próprio Cristo é aquela verdade e aquele caminho que a pregação evangélica a todos abre ao levar aos ouvidos de todos as palavras que Ele mesmo disse: «Arrependei-vos e crede no Evangelho» (Mc. 1,15). Porém, como quem não crê já está julgado (45), as palavras de Cristo são, ao mesmo tempo, palavras de juízo e de graça, de morte e de vida. n que só infligindo a morte ao que é velho podemos ter acesso à novidade de vida: e isto, que vale, em primeiro lugar, das pessoas, vale também dos diversos bens deste mundo que estão marcados tanto pelo pecado do homem como pela bênção de Deus: «porque todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus» (Rom. 3,23). Por si mesmo e por próprias forças não há ninguém que se liberte do pecado e se eleve acima de si mesmo, ninguém absolutamente que se liberte a si mesmo da sua enfermidade, da sua solidão ou da sua escravidão (46), mas todos precisam de Cristo como modelo, mestre, libertador, salvador, vivificador. De fato, na história humana, mesmo sob o ponto de vista temporal, o Evangelho foi um fermento de liberdade e de progresso e apresenta-se sempre como fermento de fraternidade, de unidade e de paz. Não é sem razão, por isso, que Cristo é celebrado pelos fiéis como «o esperado das nações e o seu salvador» (47).

Carácter escatológico da atividade missionária da Igreja

9. A atividade missionária desenrola-se entre o primeiro e o segundo advento do Senhor, em que a Igreja há de ser reunida dos quatro ventos como uma colheita, no reino de Deus (48). Mas antes de o Senhor vir, tem de ser pregado o Evangelho a todos os povos (49).
A atividade missionária não é outra coisa, nem mais nem menos, que a manifestação ou epifania dos desígnios de Deus e a sua realização no mundo e na sua história, na qual Deus, pela missão, manifestamente vai tecendo a história da salvação. Pela palavra da pregação e pela celebração dos sacramentos de que a Eucaristia é o centro e a máxima expressão, torna presente a Cristo, autor da salvação. Por outro lado, tudo o que de verdade e de graça se encontrava já entre os gentios como uma secreta presença de Deus, expurga-o de contaminações malignas e restitui-o ao seu autor, Cristo, que destrói o império do demónio e afasta toda a malícia dos pecados. O que de bom há no coração e no espírito dos homens ou nos ritos e culturas próprias dos povos, não só não se perde, mas é purificado, elevado e consumado para glória de Deus, confusão do demónio e felicidade do homem (50). A atividade missionária tende assim para a plenitude escatológica (51): por ela, com efeito, se estende, segundo as dimensões e os tempos que o Pai fixou com o seu próprio poder (52), o Povo de Deus a quem foi dito profeticamente: «Dilata o acampamento das tuas tendas e estende as telas das tuas barracas! Não te acanhes» (Is. 54,2) (53); por ela cresce o Corpo místico até constituir esse homem perfeito, na força da idade, que realiza a plenitude de Cristo (54); por ela se levanta e se vai edificando sobre os alicerces dos Apóstolos e dos profetas e com o próprio Cristo Jesus por pedra angular (Ef. 2,20), o templo espiritual onde Deus é adorado em espírito e verdade (55).

A vocação missionária

23. Embora a todo o discípulo de Cristo incumba a obrigação de difundir a fé conforme as suas possibilidades (1), Cristo Senhor chama sempre dentre os discípulos os que Ele quer para estarem com Ele e os enviar a evangelizar os povos (2). E assim, mediante o Espírito Santo, que para utilidade comum reparte os carismas como quer (3), inspira no coração de cada um a vocação missionária e ao mesmo tempo suscita na Igreja Institutos (4), que assumem, como tarefa própria, o dever de evangelizar, que pertence a toda a Igreja.
De facto, são marcados com vocação especial aqueles que, dotados de índole natural conveniente e das qualidades e talentos requeridos, estão prontos para empreender o trabalho missionário (5), quer sejam nativos quer estrangeiros: sacerdotes, religiosos e leigos. Enviados pela legítima autoridade, partem, movidos pela fé e obediência, para junto dos que estão longe de Cristo, escolhidos para uma obra à qual foram destinados (6) como ministros do Evangelho, «a fim de que a oblação dos gentios seja aceite e santificada no Espírito Santo» (Rom. 15,16).

Formação espiritual e moral

25. Para tão sublime empresa, há de o futuro missionário preparar-se com esmerada formação espiritual e moral (15). Deve, com efeito, ser capaz de tomar iniciativas, constante para levar a cabo as obras, perseverante nas dificuldades, suportando com paciência e fortaleza a solidão, a fadiga, o trabalho infrutuoso. Com espírito aberto e coração dilatado, irá ao encontro dos homens; abraçará de boa vontade os trabalhos que lhe confiarem; adaptar-se-á também generosamente aos diversos costumes e variadas condições dos povos; com ânimo concorde e mútua caridade colaborará com seus irmãos e com todos quantos se consagram à mesma empresa, de maneira que, juntamente com os fiéis, imitando a comunidade apostólica, tenham um só coração e uma só alma (16).
Estas disposições de espírito sejam diligentemente exercitadas, cuidadosamente cultivadas, elevadas e alimentadas com a vida espiritual, já desde o tempo da formação. Cheio de fé viva e esperança indefectível, o missionário seja homem de oração; arda no espírito de fortaleza, de caridade e de temperança (17); aprenda a bastar-se com o que tem (18); pelo espírito de sacrifício, leve em si o estado de morte de Jesus, a fim de que a vida de Jesus opere naqueles aos quais é enviado (19); com verdadeiro zelo gaste tudo e desgaste-se a si mesmo pelo bem das almas (20), de tal forma que «mediante o exercício diário do seu ministério, cresça no amor de Deus e do próximo» (21). Desta sorte, obedecendo com Cristo à vontade do Pai, continuará a Sua missão sob a autoridade hierárquica da Igreja, e cooperará no mistério da salvação.

Formação doutrinal e apostólica

26. Os que forem enviados aos diversos povos, como bons ministros de Cristo, devem ser alimentados «com a palavra da fé e da boa doutrina» (1 Tim. 4,6), a qual haurirão primeiramente na Sagrada Escritura, perscrutando o mistério de Cristo, de quem serão arautos e testemunhas.
E assim, todos os missionários — sacerdotes, irmãos, irmãs, leigos — sejam preparados e formados, cada qual segundo a sua condição, de maneira a estarem à altura das exigências do trabalho futuro (22). Já desde o começo, de tal modo se processe a sua formação doutrinal, que abranja tanto a universalidade da Igreja como a diversidade das nações. E isto vale tanto de todas as disciplinas, em que se formam para o desempenho do ministério, como das disciplinas úteis para o conhecimento dos povos, das culturas, das religiões, com vistas não só ao passado, mas também ao tempo presente. Aquele, pois, que é destinado a outra nação, tenha em grande apreço o seu património, língua e costumes. Ao futuro missionário importa sumamente que se aplique aos estudos missiológicos, isto é, a conhecer a doutrina e as normas da Igreja em matéria de atividade missionária, a informar-se sobre os caminhos percorridos pelos arautos do Evangelho, ao longo dos séculos, como também sobre a condição presente das missões e sobre os métodos considerados hoje mais eficazes (23).

CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA
LUMEN GENTIUM
SOBRE A IGREJA

Universalidade e catolicidade do único Povo de Deus

13. Ao novo Povo de Deus todos os homens são chamados. Por isso, este Povo, permanecendo uno e único, deve estender-se a todo o mundo e por todos os séculos, para se cumprir o desígnio da vontade de Deus que, no princípio, criou uma só natureza humana e resolveu juntar em unidade todos os seus filhos que estavam dispersos (cfr. Jo. 11,52). Foi para isto que Deus enviou o Seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas (cfr. Hebr. 1,2), para ser mestre, rei e sacerdote universal, cabeça do novo e universal Povo dos filhos de Deus. Para isto Deus enviou finalmente também o Espírito de Seu Filho, Senhor e fonte de vida, o qual é para toda a Igreja e para cada um dos crentes, princípio de agregação e de unidade na doutrina e na comunhão dos Apóstolos, na fracção do pão e na oração (cfr. Act. 2,42 gr.).
E assim, o Povo de Deus encontra-se entre todos os povos da terra, já que de todos recebe os cidadãos, que o são dum reino não terrestre, mas celeste. Pois todos os fiéis espalhados pelo orbe comunicam com os restantes por meio do Espírito Santo, de maneira que «aquele que vive em Roma, sabe que os indianos são membros seus» (23). Mas porque o reino de Cristo não é deste mundo (cfr. Jo. 18,36), a Igreja, ou seja, o Povo de Deus, ao implantar este reino, não subtrai coisa alguma ao bem temporal de nenhum povo, mas, pelo contrário, fomenta e assume as qualidades, as riquezas, os costumes e o modo de ser dos povos, na medida em que são bons; e assumindo-os, purifica-os, fortalece-os e eleva-os. Pois lembra-se que lhe cumpre ajuntar-se com aquele rei a quem os povos foram dados em herança (cfr. Salmo. 2,8), e para a cidade à qual levam dons e ofertas (cfr. Salmo. 71 [72], 10; Is. 60, 47; Apocalipse 21,24). Este carácter de universalidade que distingue o Povo de Deus é dom do Senhor; por Ele a Igreja católica tende eficaz e constantemente à recapitulação total da humanidade com todos os seus bens sob a cabeça, Cristo, na unidade do Seu Espírito (24).

EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
EVANGELII NUNTIANDI
DO PAPA PAULO VI

SOBRE A EVANGELIZAÇÃO
NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

Evangelização, vocação própria da Igreja

14. Evangelizar constitui, de fato, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade.

Laços recíprocos entre a Igreja e a evangelização

15. Quem quer que releia no Novo Testamento as origens da Igreja e queira acompanhar passo a passo a sua história e, enfim, a examine em sua vida e ação, verá que ela se acha vinculada à evangelização naquilo que ela tem de mais íntimo.
A Igreja nasce da ação evangelizadora de Jesus e dos doze. Ela é o fruto normal, querido, o mais imediato e o mais visível dessa evangelização: “Ide, pois, ensinai todas as gentes”. (37)
Ora “aqueles que acolheram a sua Palavra, fizeram-se batizar. E acrescentaram-se a eles, naquele dia, cerca de três mil pessoas… E o Senhor acrescentava cada dia ao seu número os que seriam salvos”. (38)
Nascida da missão, pois, a Igreja é por sua vez enviada por Jesus, a Igreja fica no mundo quando o Senhor da glória volta para o Pai. Ela fica aí como um sinal, a um tempo opaco e luminoso, de uma nova presença de Jesus, sacramento da sua partida e da sua permanência, Ela prolonga-o e continua-o. Ora, é exatamente toda a sua missão e a sua condição de evangelizado, antes de mais nada, que ela é chamada a continuar. (39) A comunidade dos cristãos, realmente, nunca é algo fechado sobre si mesmo. Nela, a vida íntima, vida de oração, ouvir a Palavra e o ensino dos apóstolos, caridade fraterna vivida e fração do pão, (40) não adquire todo o seu sentido senão quando ela se torna testemunho, a provocar a admiração e a conversão e se desenvolve na pregação e no anúncio da Boa Nova. Assim, é a Igreja toda que recebe a missão de evangelizar, e a atividade de cada um é importante para o todo.
Evangelizadora como é, a Igreja começa por se evangelizar a si mesma. Comunidade de crentes, comunidade de esperança vivida e comunicada, comunidade de amor fraterno, ela tem necessidade de ouvir sem cessar aquilo que ela deve acreditar, as razões da sua esperança e o mandamento novo do amor. Povo de Deus imerso no mundo, e não raro tentado pelos ídolos, ela precisa de ouvir, incessantemente, proclamar as grandes obras de Deus,(41) que a converteram para o Senhor; precisa sempre ser convocada e reunida de novo por ele. Numa palavra, é o mesmo que dizer que ela tem sempre necessidade de ser evangelizada, se quiser conservar frescor, alento e força para anunciar o Evangelho. O Concílio Ecumênico Vaticano II recordou e depois o Sínodo de 1974 (42) retomou com vigor este mesmo tema: a Igreja que se evangeliza por uma conversão e uma renovação constantes, a fim de evangelizar o mundo com credibilidade.
A Igreja é depositária da Boa Nova que há de ser anunciada. As promessas da nova aliança em Jesus Cristo, os ensinamentos do Senhor e dos apóstolos, a Palavra da vida, as fontes da graça e da benignidade de Deus, o caminho da salvação, tudo isto lhe foi confiado. É o conteúdo do Evangelho e, por conseguinte, da evangelização, que ela guarda como um depósito vivo e precioso, não para manter escondido, mas sim para o comunicar.
Enviada e evangelizadora, a Igreja envia também ela própria evangelizadores. É ela que coloca em seus lábios a Palavra que salva, que lhes explica a mensagem de que ela mesma é depositária, que lhes confere o mandato que ela própria recebeu e que, enfim, os envia a pregar. E a pregar, não as suas próprias pessoas ou as suas ideias pessoais, (43) mas sim um Evangelho do qual nem eles nem ela são senhores e proprietários absolutos, para dele disporem a seu bel-prazer, mas de que são os ministros para o transmitir com a máxima fidelidade.

Evangelização das culturas

20. Poder-se-ia exprimir tudo isto dizendo: importa evangelizar, não de maneira decorativa, como que aplicando um verniz superficial, mas de maneira vital, em profundidade e isto até às suas raízes, a civilização e as culturas do homem, no sentido pleno e amplo que estes termos têm na Constituição Gaudium et Spes, (50) a partir sempre da pessoa e fazendo continuamente apelo para as relações das pessoas entre si e com Deus.
O Evangelho, e consequentemente a evangelização, não se identificam por certo com a cultura, e são independentes em relação a todas as culturas. E, no entanto, o reino que o Evangelho anuncia é vivido por homens profundamente ligados a uma determinada cultura, e a edificação do reino não pode deixar de servir-se de elementos da civilização e das culturas humanas. O Evangelho e a evangelização independentes em relação às culturas, não são necessariamente incompatíveis com elas, mas suscetíveis de as impregnar a todas sem se escravizar a nenhuma delas.
A ruptura entre o Evangelho e a cultura é sem dúvida o drama da nossa época, como o foi também de outras épocas. Assim, importa envidar todos os esforços no sentido de uma generosa evangelização da cultura, ou mais exatamente das culturas. Estas devem ser regeneradas mediante o impacto da Boa Nova. Mas um tal encontro não virá a dar-se se a Boa Nova não for proclamada.

Necessária ligação com a promoção humana

31. Entre evangelização e promoção humana, desenvolvimento, libertação, existem de fato laços profundos: laços de ordem antropológica, dado que o homem que há de ser evangelizado não é um ser abstrato, mas é sim um ser condicionado pelo conjunto dos problemas sociais e econômicos; laços de ordem teológica, porque não se pode nunca dissociar o plano da criação do plano da redenção, um e outro a abrangerem as situações bem concretas da injustiça que há de ser combatida e da justiça a ser restaurada; laços daquela ordem eminentemente evangélica, qual é a ordem da caridade: como se poderia, realmente, proclamar o mandamento novo sem promover na justiça e na paz o verdadeiro e o autêntico progresso do homem? Nós próprios tivemos o cuidado de salientar isto mesmo, ao recordar que é impossível aceitar “que a obra da evangelização possa ou deva negligenciar os problemas extremamente graves, agitados sobremaneira hoje em dia, no que se refere à justiça, à libertação, ao desenvolvimento e à paz no mundo. Se isso porventura acontecesse, seria ignorar a doutrina do Evangelho sobre o amor para com o próximo que sofre ou se encontra em necessidade”. (61)

Primeiro anúncio aos que estão longe

51. Dar a conhecer Jesus Cristo e o seu Evangelho àqueles que não os conhecem, é precisamente, a partir da manhã do Pentecostes, o programa fundamental que a Igreja assumiu como algo recebido do seu Fundador. Todo o Novo Testamento, e duma maneira especial os Atos dos Apóstolos, dão testemunho de um momento privilegiado e, de algum modo, exemplar, desse esforço missionário, que viria em seguida a assinalar toda a história da Igreja.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 8 de dezembro, solenidade da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria, do ano de 1975, décimo terceiro do nosso pontificado. PAULO VI

CARTA ENCÍCLICA
REDEMPTORIS MISSIO
de JOÃO PAULO II
SOBRE A VALIDADE PERMANENTE
DO MANDATO MISSIONÁRIO

A fé em Cristo é uma proposta à liberdade do homem

7. A urgência da atividade missionária deriva da radical novidade de vida, trazida por Cristo e vivida pelos Seus discípulos. Esta nova vida é dom de Deus, e, ao homem, é-lhe pedido que a acolha e desenvolva, se quiser realizar integralmente a sua vocação, conformando-se a Cristo. Todo o Novo Testamento se apresenta como um hino à vida nova, para aquele que crê em Cristo e vive na Sua Igreja. A salvação em Cristo, testemunhada e anunciada pela Igreja, é auto comunicação de Deus. « O amor não só cria o bem, mas faz participar também na própria vida de Deus: Pai, Filho e Espírito Santo. Com efeito, aquele que ama quer dar-se a si mesmo ». 9
Deus oferece ao homem esta novidade de vida. « Poder-se-á rejeitar Cristo e tudo aquilo que Ele introduziu na história do homem? Certamente que sim; o homem é livre: ele pode dizer não, a Deus. O homem pode dizer não, a Cristo. Mas permanece a pergunta fundamental: é lícito fazê-lo? É lícito, em nome de quê? ». 10

«Não podemos calar-nos » (At 4, 20)

11. Que dizer então das objecções, atrás referidas, relativamente à missão ad gentes? Respeitando todas as crenças e todas as sensibilidades, devemos afirmar antes de mais, com simplicidade, a nossa fé em Cristo, único Salvador do homem — fé que recebemos como um dom do Alto, sem mérito algum da nossa parte. Dizemos com S. Paulo: « eu não me envergonho do Evangelho, o qual é poder de Deus para salvação de todo o crente » (Rm 1, 16). Os mártires cristãos de todos os tempos — também do nosso — deram e continuam a dar a vida para testemunhar aos homens esta fé, convencidos de que cada homem necessita de Jesus Cristo, o Qual, destruindo o pecado e a morte, reconciliou os homens com Deus.
Cristo proclamou-se Filho de Deus, intimamente unido ao Pai e, como tal, foi reconhecido pelos discípulos, confirmando as suas palavras com milagres e sobretudo com a ressurreição. A Igreja oferece aos homens o Evangelho, documento profético, capaz de corresponder às exigências e aspirações do coração humano: é e será sempre a « Boa Nova ». A Igreja não pode deixar de proclamar que Jesus veio revelar a face de Deus, e merecer, pela cruz e ressurreição, a salvação para todos os homens.
À pergunta por que a missão? Respondemos, com a fé e a experiência da Igreja, que abrir-se ao amor de Cristo é a verdadeira libertação. N’Ele, e só n’Ele, somos libertos de toda a alienação e extravio, da escravidão ao poder do pecado e da morte. Cristo é verdadeiramente « a nossa paz » (Ef 2,14), e « o amor de Cristo nos impele » (2 Cor 5, 14), dando sentido e alegria à nossa vida. A missão é um problema de fé, é a medida exata da nossa fé em Cristo e no Seu amor por nós.
A tentação hoje é reduzir o cristianismo a uma sabedoria meramente humana, como se fosse a ciência do bom viver. Num mundo fortemente secularizado, surgiu uma « gradual secularização da salvação », onde se procura lutar, sem dúvida, pelo homem, mas por um homem dividido a meio, reduzido unicamente à dimensão horizontal. Ora nós sabemos que Jesus veio trazer a salvação integral, que abrange o homem todo e todos os homens, abrindo-lhes os horizontes admiráveis da filiação divina.
Por que a missão? Porque a nós, como a S. Paulo, « nos foi dada esta graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo » (Ef 3, 8). A novidade de vida n’Ele é « Boa Nova » para o homem de todos os tempos: a ela todos são chamados e destinados. Todos, de facto, a buscam, mesmo se às vezes confusamente, e têm o direito de conhecer o valor de tal dom e aproximar-se dele. A Igreja, e nela cada cristão, não pode esconder nem guardar para si esta novidade e riqueza, recebida da bondade divina para ser comunicada a todos os homens.
Eis por que a missão, para além do mandato formal do Senhor, deriva ainda da profunda exigência da vida de Deus em nós. Aqueles que estão incorporados na Igreja Católica devem-se sentir privilegiados, e, por isso mesmo, mais comprometidos a testemunhar a fé e a vida cristã como serviço aos irmãos e resposta devida a Deus, lembrados de que « a grandeza da sua condição não se deve atribuir aos próprios méritos, mas a uma graça especial de Cristo; se não correspondem a essa graça por pensamentos, palavras e obras, em vez de se salvarem, incorrem num julgamento ainda mais severo ». 20

A caridade: fonte e critério da missão
60. « A Igreja em todo o mundo – disse-o durante a minha visita ao Brasil – quer ser a Igreja dos pobres. Ela deseja extrair toda a verdade contida nas Bem-aventuranças, e em particular na primeira: “Bem-aventurados os pobres em espírito …”. Ela quer ensinar e pôr em prática esta verdade como Jesus, que veio fazer e ensinar ». 114
As jovens Igrejas, que, na sua maioria, vivem no meio de povos sofrendo de uma enorme pobreza, referem muitas vezes esta preocupação como parte integrante da sua missão. A Conferência dos Bispos latino-americanos, em Puebla, depois de ter recordado o exemplo de Jesus, escreve que « os pobres merecem uma atenção preferencial, seja qual for a situação moral ou pessoal em que se encontrem. Criados à imagem e semelhança de Deus, para serem seus filhos, essa imagem está ofuscada, e até ultrajada. Por isso, Deus toma a sua defesa e os ama. Daí resulta que os primeiros destinatários da missão são os pobres, sendo a sua evangelização, sinal e prova por excelência da missão de Jesus ».
Fiel ao espírito das Bem-aventuranças, a Igreja é chamada à partilha com os pobres e oprimidos de qualquer género. Assim exorto os discípulos de Cristo e as comunidades cristãs, desde as famílias às dioceses, das paróquias aos institutos religiosos, a fazerem uma sincera revisão da própria vida, na perspectiva da solidariedade com os pobres. Ao mesmo tempo, agradeço aos missionários que, com a sua presença amorosa e o seu serviço humilde, trabalham para o desenvolvimento integral da pessoa e da sociedade, levantando escolas, centros sanitários, leprosarias, casas de assistência para diminuídos físicos e anciãos, iniciativas para a promoção da mulher. Agradeço em particular, às religiosas, aos irmãos e aos leigos missionários, pela sua dedicação, enquanto encorajo os voluntários de Organizações não-governamentais, hoje cada vez mais numerosos, que se dedicam a estas obras de caridade e de promoção humana.
De fato, são estas « obras de caridade » que dão testemunho da alma de toda a atividade missionária: o amor, que é e permanece o verdadeiro motor da missão, constituindo também « o único critério pelo qual tudo deve ser feito ou deixado de fazer, mudado ou mantido. É o princípio que deve dirigir cada ação, e o fim para o qual deve tender. Agindo na perspectiva da caridade ou inspirados pela caridade, nada é impróprio, e tudo é bom ».

 

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Todos chamados para santidade missionária

Beata Chiara Luce Badano

Beata Chiara Luce Badano

«Todos, na Igreja, precisamente porque são seus membros, recebem e partilham a vocação comum a santidade

“O chamado a plenitude da vida cristã e a perfeição da caridade é dirigida a todos aqueles que creem no Cristo, qualquer que seja seu estado de vida ou posição”. (João Paulo II, Exortação Apostólica: Christifideles Laici, 1988)

“O Batismo, a Confirmação e a Eucaristia são os sacramentos da iniciação cristã. Eles fundamentam a vocação comum de todos os discípulos de Cristo, vocação a santidade e a missão de evangelizar o mundo. Eles conferem as graças necessárias para a vida segundo o Espírito nesta vida de peregrinos em marcha para a pátria. ” (Catecismo da Igreja Católica; § 1533)

Alguns textos nas Escrituras

Levítico 19, 2: « Sejam santos, como eu sou santo »

Êxodo 22, 30: « Vocês serão para mim homens santos »

Beato Pier Giorgio Frassati

Beato Pier Giorgio Frassati

Mateus 5, 43-47: « 43Vocês escutaram que o que foi dito: Tu amarás tem próximo e odiarás teu inimigo. 44 Eu, porém vos digo: Ame vossos inimigos e rezem pelos vossos perseguidores, 45a fim de se tornarem filhos do Vosso Pai que está nos Céus, pois ele faz o sol se levantar sobre os maus e sobre os bons e faz cair a chuva sobre os justos e sobre os injustos. 46Pois se vocês amarem aqueles que vos amam que recompensa teriam? Os publicanos não fazem assim? 47E se reservar vossas saudações a vossos irmãos, o vocês fazem de extraordinário? Os pagãos não fazem eles a mesma coisa? 48 Portanto vocês sejam perfeitos como vosso Pai Celeste é perfeito ».

1Pedro 1,14: «14Crianças obedientes, não se deixem modelar pelas suas antigas paixões, no tempo de vossa ignorância 15 Mas, a exemplo do Santo que vos chamou, tornem-se santos, vocês também, em toda vossa conduta, 16 segundo o que está escrito: Sedes santos, porque eu sou santo »

Efésios 1, 4: « É assim que [Deus] nos criou nele desde antes da fundação do mundo para sermos santos e imaculados em sua presença, no amor… ».

Na Tradição da Igreja

Concilio Vaticano II, Constituição Lumen Gentium:§ 39 : « A nossa fé crê que a Igreja, cujo mistério o sagrado Concílio expõe, é indefectivelmente santa. Com efeito, Cristo, Filho de Deus, que é com o Pai e o Espírito ao único Santo (120), amou a Igreja como esposa, entregou-Se por ela, para santificá-la (cf. Ef. 5, 25-26) e uniu-a a Si como Seu corpo, cumulando-a com o dom do Espírito Santo, para glória de. Deus. Por isso, todos que estão na Igreja, pertencentes à Hierarquia ou pastoreados por ela, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: «esta é a vontade de Deus, a vossa santificação» (1 Tess. 4,3; cfr. Ef. 1,4). Esta santidade da Igreja incessantemente se manifesta, e deve manifestar-se, nos frutos da graça que o Espírito Santo produz nos fiéis; exprime-se de muitas maneiras em cada um daqueles que, no seu estado de vida, tendem à perfeição da caridade, com edificação do próximo; aparece dum modo especial na prática dos conselhos chamados evangélicos. A prática destes conselhos, abraçada sob a moção do Espírito Santo por muitos cristãos, quer privadamente quer nas condições ou estados aprovados pela Igreja, leva e deve levar ao mundo um admirável testemunho e exemplo desta santidade.

§ 40: Jesus, mestre e modelo divino de toda a perfeição, pregou a santidade de vida, a qual Ele é autor e consumador, a todos e a cada um dos seus discípulos, de qualquer condição: «sede perfeitos como vosso Pai Celeste é perfeito» (Mt. 5,48) (121). A todos enviou o Espírito Santo, que os move interiormente a amarem a Deus com todo o coração, com toda a alma, com todo o espírito e com todas as forças (cfr. Mc. 12,30) e a amarem-se uns aos outros como Cristo os amou (cf. Jo. 13,34; 15,12). Os seguidores de Cristo, chamados por Deus e justificados no Senhor Jesus, não por merecimento próprio, mas pela vontade e graça de Deus, são feitos, pelo Batismo da fé, verdadeiramente filhos e participantes da natureza divina e, por conseguinte, realmente santos. É necessário, portanto, que, com o auxílio divino, conservem e aperfeiçoem, vivendo-a, esta santidade que receberam. “O Apóstolo admoesta-os a que vivam como convém a santos” (Ef. 5,3), “como eleitos e amados de Deus, se revistam de entranhas de misericórdia, benignidade, humildade, mansidão e paciência” (Col. 3,12) e alcancem os frutos do Espírito para a santificação (cfr. Gál. 5,22; Rom. 6,22). E porque todos nós cometemos faltas em muitas ocasiões (Tg. 3,2), precisamos constantemente da misericórdia de Deus e todos os dias devemos orar: «perdoai-nos as nossas ofensas» (Mt. 6,12) (122). É, pois, claro a todos, que os cristãos de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade (123). Na própria sociedade terrena, esta santidade promove um modo de vida mais humano. Para alcançar esta perfeição, empreguem os fiéis as forças recebidas segundo à medida que as dá Cristo, a fim de que, seguindo as Suas pisadas e conformados à Sua imagem, obedecendo em tudo à vontade de Deus, se consagrem com toda a alma à glória do Senhor e ao serviço do próximo. Assim crescerá em frutos abundantes a santidade do Povo de Deus, como patentemente se manifesta na história da Igreja, com a vida de tantos santos.

§ 41: Nas diversas formas de vida e nas diferentes ocupações na vida é sempre a mesma santidade que é cultivada por todos que são conduzidos pelo Espírito de Deus e que, obedecem a voz do Pai e adoram Deus o Pai em espírito e verdade, marcham seguindo a Cristo pobre, humilde e levando a cruz, a fim de merecerem ser participantes de Sua Gloria. Cada um, segundo os próprios dons e funções, deve progredir sem desfalecimentos pelo caminho da fé viva, que estimula a esperança e que atua pela caridade. […]

§ 42: […] Todos os fiéis do Cristo são, portanto, convidados e obrigados a buscar a santidade e a perfeição de seu estado.

A Teresinha fala da santidade

Santa Terezinha do Menino Jesus, Manuscritos C:

doc3«A senhora o sabe, minha Mãe, eu sempre desejei ser uma santa, mas infelizmente eu sempre constatei, quando eu me comparei aos santos que há entre eles e eu a mesma diferença que há entre uma montanha cujo cume ser perde nos céus e o grão de areia escura que é pisada pelos pés dos passantes, em lugar de me desencorajar, eu me disse : O Bom Deus não teria me inspirado desejos irrealizáveis, pois apesar da minha pequenez aspiro a santidade ; crescer, é impossível, eu devo me suportar tal como eu sou, com todas as minhas imperfeições; mas eu quero buscar meios para ir ao Céu por uma pequena via, bem reta, bem curta, uma pequena via toda nova. Nós estamos num século de invenções, agora não vale mais a pena subir os degraus de uma escada, na casa dos ricos há um elevador substitui muito melhor a escada. Eu desejo também encontrar um elevador para me elevar até Jesus, pois eu sou muito pequena para subir a rude escada da perfeição. Então eu busquei nos livros dos santos uma indicação para um elevador, objeto de meu desejo então eu li estas palavras saírem da boca da Sabedoria Eterna: Se alguém é MUITO PEQUENO, venha a mim. Então eu fui, crendo que eu tinha encontrado o que eu estava procurando e querendo conhecer ô meu Deus! O que o Senhor faria com a pequenina que respondia a teu chamado? Eu continuei minhas buscas e eis o que eu encontrei: Como uma mãe caricia seu filho, assim eu vos consolarei, eu vos portarei sob meu seio e eu vos balançarei sobre meus joelhos! Ah ! Jamais palavras tão tenras, tão melodiosas, vieram a minha alma, o elevador que deve me levar até o Céu, são vossos braços, ó Jesus! »

 

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O que é a santidade?

A santidade é a caridade concreta!

doc1Santa Terezinha do Menino Jesus, Manuscrito C:
« Há na comunidade uma irmã que tem o talento de me contrariar em todas as coisas, suas maneiras, suas palavras e seu caráter me parecem muito desagradável. Entretanto é uma santa religiosa que deve ser muito agradável ao bom Deus. Assim não desejando ceder à antipatia natural que eu experimentava, eu me disse que a caridade não devia consistir em sentimento, mas em obras. Então eu me apliquei a fazer por esta irmã o que eu jamais faria a outra pessoa que eu amava mais. A cada vez que eu a encontrava eu rezava ao bom Deus por ela, lhe oferecia todas suas virtudes e méritos. Eu me sentia bem que isso agradava a Jesus, o Artista das almas, é feliz quem não para no exterior, mas que penetrando até o santuário intimo que Ele escolheu por morada, o admira em sua beleza. Eu não me contentei em rezar muito pela irmã que me dava tantos combates, eu me prendi a lhe fazer todos os pequenos serviços possíveis e quanto eu tinha a tentação de lhe responder de uma forma desagradável, eu me contentava em lhe dar o mais agradável sorriso e tentava mudar a conversa, pois é dito no ” A Imitação “: “É melhor deixar cada um em seus sentimentos que parar e contestar”. Frequentemente também, quando eu não estava na recreação (Eu quero dizer, durante as horas de trabalho) e tinha qualquer trabalho com esta irmã quando meus combates interiores eram muito violentos, eu fugia deles como uma

Claire de Castelbajac

Claire de Castelbajac

desertora. Como ela ignorava absolutamente o que eu sentia por ela, jamais ela suspeitou os motivos de minha conduta e permaneceu persuadida que seu caráter me era agradável. Um dia na recreação, ela me disse estas palavras com um ar muito contente: “Poderia me dizer, minha irmã Tereza do Menino Jesus, o que é que vos atrai tanto em mim, cada vez que você me olha, eu a vejo sorrir”? Ah! O que me atira, é Jesus escondido no fundo de tua alma… Jesus torna doce o que há de mais amargo… Eu lhe respondi que eu sorria porque eu era contente de vê-la ( vem entendido que eu não ajuntei que era do ponto de vista espiritual) »

 

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Como responder ao chamado de Deus

doc1Quando um rapaz um dia se diz que talvez ele seja chamado pelo Senhor a tornar-se padre, quais são as etapas que devem ser cumpridas até a entrada num seminário? Cada vocação é uma história singular, e seria ilusório fixar no tempo um itinerário único para todos. Porém, vamos tentar fornecer alguns pontos básicos.

Falar – Normalmente a consciência da vocação nasce de um evento espiritual decisivo ou por meio de uma lenta maturação interior, mas seja como for chegará um momento no qual este chamado deverá ser exprimido.

Pode acontecer que alguns vão preferir em primeiro consagrar um tempo para procurar eles mesmos as informações nos sites, na internet, folhar revistas, livretos de informação que se encontram dispostos nos locais das igrejas e outros. Mas eles também acabarão num determinado momento dar um passo e decidirem-se por fazerem um encontro, onde colocarão as questões e entrarão em contatos. Os mais decididos, os mais avisados, se dirigirão sem tardar a um padre conhecido, ou diretamente ao serviço das vocações da sua diocese, para pedir conselho e até iniciar um acompanhamento espiritual.

Discernir – Mesmo abrindo o coração com toda confiança a um orientador espiritual, não deixa de ser muito útil consagrar um ano para se dar os meios para um discernimento, particularmente participando às proposições ofertas pelo serviço de vocação.

Decidir – Quando vem o momento da decisão: “Deixarei mesmo minha vida de estudante ou profissional para iniciar uma formação em vista do sacerdócio?” É sempre bom fazer um retiro de vários dias, durante o qual a decisão será tomada sob o olhar amoroso do Senhor. É paz e libertação poder tomar uma decisão livre!

Enraizar a vida no Cristo – A Igreja dá sua resposta ao pedido de entrada em formação. Esta começa, em muitas dioceses, por um ano propedêutico. Trata-se de um tempo de ruptura e construção espiritual na relação pessoal com Jesus Cristo. Este ano é decisivo pois permite que a vida de oração seja estruturada, que os laços com a Igreja sejam reforçados e que, em alguns casos, a decisão de entrar para o seminário amadureça.

Pe Denis Jachiet,
Serviço das vocações da Arquidiocese de Paris (França)

 

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Critérios para melhor decidir

Seria eu chamado a ser padre, consagrado(a), casado(a)?
Eis uma questão difícil e às vezes embaraçante, com certeza. Mas como identificar este dom?

O fim último de toda vocação é a união a Deus, ou seja, a santidade. Este caminho é para todos. Porém alguns são chamados por Deus a seguir um chamado específico através da vocação sacerdotal ou da vida consagrada. Tal chamado é um dom de Deus a ser acolhido (e não um problema a ser resolvido!). Para discernir uma vocação, a Escritura retém quatro critérios que se completam e propõem os meios adaptados para fazer da resposta ao Senhor, um ato livre de amor.

Conhecer o Cristo
doc1Quem deseja conhecer Jesus Cristo, tenta encontrá-lo e ter, com ele, diálogo pessoal e regular como um amigo fala a seu amigo. A escuta da Palavra de Deus, combinada com a frequência aos sacramentos, faz entrar no mistério da Pessoa divina.

Concretamente, recomenda-se àquele que quer enxergar mais claro a respeito de sua vocação, no mínimo, vinte minutos de oração por dia, a Eucaristia Dominical e a confissão mensal.

Pela leitura das Escrituras, descobrirá como Deus chama e conduz seu povo na história. Assim, recebe-se os elementos para compreender como Ele age na própria vida.

Amar a Igreja
Como dar a vida para servir a Igreja sem conhecê-la, sem ter confiança nela. Para discernir um chamado é necessário a Igreja. Convém, por um lado, escolher um orientador para identificar a obra de Deus na vida da pessoa e, por outro lado, participar de um grupo jovem para rezar, formar-se e aprender a servir juntos. É útil contatar a pessoa responsável pelas vocações da sua diocese, uma congregação ou uma comunidade para seguir um ciclo de discernimento adaptado. A participação na vida da Igreja, numa paróquia, através de uma comunidade ou de um movimento, permite conhecer melhor a realidade da Igreja.

Discernir a presença de Deus
Deus doou seu Filho por amor ao mundo (cf. Jn 3,16). O cristão é a alma do mundo, e ele não pode viver fora deste meio que Deus criou para o homem. O desafio de cada vocação consistirá em crescer na contradição em relação ao espírito do mundo. Não fugindo deste mundo, mas amando-o! É capital prestar atenção na beleza da criação, sobre todas as boas obras de tantos homens e mulheres, para se maravilhar e descobrir o mundo com o olhar de Deus. Este age mediante a providência no cotidiano, e é importante aprender a “fazer memória” de sua vida regularmente, a fim de discernir os sinais da presença de Deus.

Identificar os desejos
Deus fala através das profundezas dos nossos desejos, como diz o Salmo: “Eu escutarei aquilo que o Senhor dirá em mim” (Sl 84,9). Tanto na oração quanto na vida, pode-se observar uma variação de seus próprios estados de espírito: alegria, tristeza, impulsos, resistências etc.. É possível escutar Deus através de uma consideração de seus estados de espírito e do sentido espiritual destes. Trata-se, com efeito, de examinar com docilidade, com a ajuda do Espírito Santo, na oração, seus pensamentos interiores para identificar se eles vêm de Deus, do demônio ou de si mesmo. Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, distingue vários momentos da alma. As consolações de Deus são períodos de alegria espiritual profunda. Os “sintomas” destes períodos são a paz, a alegria e a realização. Estas são distintas das “falsas alegrias” do mundo que são supérfluas e efêmeras.

As desolações podem ser consequências do pecado ou das resistências interiores, que se caracterizam pela tristeza, pelo desânimo e pela falta de coragem. Durante estes períodos, Santo Inácio aconselha permanecer firme nas decisões e compromissos assumidos. Não é em meio à tempestade que um navio muda o rumo! Mas a desolação pode ter um efeito benéfico: permitir a experiência da pobreza, da fragilidade, tal como um sótão obscuro iluminado por um raio de sol que faz aparecer a poeira. É um convite a uma entrega de si mais radical ao amor de Deus. O Senhor dirá à irmã Faustina1 que a atitude mais fundamental do cristão é a confiança na sua misericórdia.

Esses critérios e estes meios são úteis para ir até o fim de sua vocação à santidade. Tenho uma vocação específica? Se eu emprego os meios adaptados para avançar, um dia este chamado ficará claro. É legítimo que um homem, que aspira à santidade, se coloque diante Deus a questão do sacerdócio antes de se comprometer no matrimônio. Aquele que ama, descobriu o segredo da vocação cristã e poderá dar ouvidos a este último conselho: “Reze como se tudo dependesse de Deus. Aja como se tudo dependesse de ti.”

Pe Xavier Bizard,
Responsável pela acolhida das vocações sacerdotais da Comunidade do Emanuel na América latina

 

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Como Deus chama?

Em construção.

 

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O casamento é uma vocação para todos?

doc_1O casamento é uma vocação, é dela que renascem todas as outras vocações para a Igreja de Deus. A família é essencial. Casamento é a vocação que celebra o amor que naturalmente brota entre um homem cristão e uma mulher cristã.

Sobre essa belíssima vocação, podemos afirmar que é através da oração comum e participação da Eucaristia, que a família poderá permanecer unida e terá forças para permanecer sempre unida. Só o amor, o perdão e a generosidade que vem de Deus tornam-se rocha segura em cima da qual podemos construir ou reconstruir uma família.

Qual a importância do leigo na família?

Leigos são membros conscientes do povo de Deus e o fermento do Evangelho no mundo, ser leigo é ser uma pessoa da Igreja no coração do mundo (cf. DAp 209). Ser leigo na família é estar comprometido com a construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Assumindo o batismo e nos tornando membros vivos e atuantes em nossa comunidade. É a comunhão de pessoas, imagem da Trindade, vestígios do Pai, do Filho e do Espírito Santo. É compreender que a oração é a base da vida cristã e por isso início e fim da vida. Sem a oração não há como vivermos unidos a Jesus. Quando rezamos estamos em pleno apostolado. Estamos atuando como membros conscientes do anuncio e testemunho da Palavra, da prática de valores cristãos. A oração é a força do homem, ela é o momento do encontro de Deus com o homem. Como nos diz Mateus 7, 24-25: “Portanto quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como o homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela não caiu, porque tinha seus alicerces na rocha”.

Na família é que aprendemos nossas primeiras lições de vida, aprendemos a ser fraternos, a praticar os ensinamentos do amor com quem convive conosco e nos partilha a mesa. Através dos bons exemplos estaremos habilitados para fazer o bem aos nossos irmãos.

Sabemos que muitas são as barreiras encontradas na vida familiar: o corre-corre do dia a dia, as enfermidades, a falta de valores da sociedade, as injustiças, a falta de amor, a falta de solidariedade, etc.

Mas, com tudo isso, nós, cristãos, somos chamados a fazer do nosso lar um lugar onde a fé e o testemunho tenham prioridade em nossa vida, e que todos os membros da família trabalhem pela felicidade um do outro.

 


*Cezar e Sandra Terezinha Krause são o casal coordenador paroquial do Movimento do EPC – Encontro de Pais com Cristo da cidade de Uruguaiana. (Artigo publicado na edição de agosto/2012 do boletim diocesano Nossa Terra Santa)

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Por que se formar para o casamento?

doc1Vivemos num contexto social de muitas “éticas” até confrontantes. As desculpas para não se seguirem valores inerentes à natureza e a verdades objetivas são muitas. A título de ser moderno ou não retrógrado passa-se, não raro, por cima da verdade e do direito em função do modismo ou da satisfação pessoal. Compromissos com valores da dignidade humana, da família, do sexo, do respeito aos indefesos, ao meio ambiente e ao bem comum ficaram para os que são formados e assumem a força do caráter como valor acima de outros interesses.

Na ordem afetiva, sentimental e sexual se fica muito à mercê da propaganda e dos desejos impulsionados pela libido e pela sensação. Tais desejos nem sempre são canalizados por valores que orientam a pessoa à construção da felicidade como conjugação do prazer momentâneo e a realização de um ideal de vida.

Fixando-se mais no animalesco do que no sentido da vida plenificado com valores éticos, morais e sociais, a pessoa fica sujeita à irracionalidade do uso e da busca do prazer momentâneo como algo absoluto. Nessa direção, a pessoa se torna insaciável e não encontra no prazer momentâneo um sentido mais elevado e realizador da vida.

Na trilha e na busca de sentido para a convivência matrimonial, pode haver engano de realização humana, quando homem e mulher não se unem em vista de uma real vocação conjugal. O impulso para o casamento, baseado unicamente no sensorial ou no desejo dos dois se gratificarem na complementaridade afetiva e sexual, frequentemente pode ser rompido com algum desequilíbrio da doação de um pelo outro.

Havendo, porém, em ambos, a consciência e o pacto de mútua ajuda para conseguirem um ideal de vida que dê um sentido de vida maior, acontece base de fecundidade na vocação matrimonial. Para isso, é preciso orientação e formação para o valor do casamento como verdadeira vocação. Para isso, a preparação é fundamental.

Caso contrário, viveremos cada vez mais a panaceia de uniões que não levam à realização das pessoas que se casam, com consequências muitas vezes danosas para eles e para os filhos! Não à toa Jesus Cristo fala da união para sempre do casamento entre o homem e a mulher, para a busca da felicidade, que está num ideal de vida buscado perenemente. A bênção divina está no coração de tal encaminhamento. Mas é preciso, nessa direção, haver preparação, vontade e responsabilidade de construção da vida a dois para valer.

Nada, assim, vai tirar o casal do sério de uma vida de amor e doação autêntica. Meios coadjuvantes para isso encontramos na ordem natural e sobrenatural: diálogo, compreensão, boa vontade, colaboração, valorização do outro, perdão, oração, meditação na Palavra de Deus, sacramentos, aceitação das observações do outro, aconselhamento…

Muitos são os obstáculos para que o amor matrimonial corra nessa perspectiva. A influência do paganismo, da mediocridade, a falta de formação e influência de grandes meios de comunicação materialistas dificultam a juventude a se pautar na vida por valores acima apresentados. Aliás, na sociedade vemos duas vocações de fundamental importância: a família e a política. Justamente para as duas há muita falta de preparo! As consequências são óbvias!

A Palavra de Deus nos auxilia para valorizarmos a vocação matrimonial: “Maridos, amai as vossas mulheres, como o Cristo amou a Igreja e se entregou por Ela… Assim é que o marido deve amar a sua mulher, como ao seu próprio corpo… Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne” (Ef 5, 25.28.31).

Dom José Alberto Moura,
Arcebispo de Montes Claros, MG

Fonte: http://www.cancaonova.com/portal/canais/formacao/internas.php?e=11724

 

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O casamento, vocação a santidade

Discurso do Papa Paulo VI aos casais do movimento
«Equipes de Nossa Senhora»

Segunda-feira, 4 de maio de 1970

Diletos Filhos e Filhas

Primeiramente agradecemos do fundo do coração as vossas palavras de fé, a vossa vigília de oração pelas nossas intenções e também a vossa dedicação ao serviço das vocações. E queremos manifestar-vos a grande alegria que sentimos em vos receber esta manhã e de nos dirigirmos, não só a vós, mas ainda aos 20.000 casais das Equipes de Nossa Senhora cuja radiação através do mundo e a preocupação de viver com Cristo e tecer com Ele a trama diária do vosso amor conjugal acabastes de falar. Entre casais cristãos, vós constituís pequenas equipes de mútua ajuda espiritual, corroboradas, nos seus esforços, por uma presença sacerdotal. Como não haveríamos de nos alegrar com isto? Diletos filhos e filhas, de todo o coração o Papa vos encoraja e pede a bênção de Deus sobre os vossos empreendimentos.

Muitas vezes a Igreja pareceu, sem razão, suspeitar do amor humano. Também vos queremos dizer hoje claramente: não, Deus não é inimigo das grandes realidades humanas e a Igreja não desconhece os valores quotidianamente adquiridos por milhões de lares. Pelo contrário, a boa-nova trazida por Cristo Salvador é uma boa-nova para o amor humano, também ele excelente nas suas origens — « Deus, vendo toda a Sua obra, considerou-a muito boa » (Gên 1,31) —, também ele corrompido pelo pecado, também ele remido ao ponto de se tornar, pela graça, meio de santidade.

O matrimônio» no Senhor, vocação de santidade

Como todos os batizados, vós fostes, realmente, chamados à santidade, segundo o ensinamento da Igreja, solenemente reafirmado pelo Concílio (cfr. Lumen Gentium, n. 11). Mas deveis dirigir-vos a ela com o vosso modo próprio, na vossa e pela vossa vida de família (Ibid. n. 41). E a Igreja que nos ensina: « Os esposos, tornados capazes pela graça de levar uma vida santa» (Gaudium et Spes, n. 49 § 2) e de fazer do seu lar « como santuário familiar da Igreja» (Apostolicam Actuositatem, n. 11). Estes ensinamentos, cujo esquecimento é tão trágico para o nosso tempo, são-vos certamente familiares. Gostaríamos de meditar neles juntamente convosco, por alguns instantes, para reforçar ainda em vós, se for necessário, a vontade de viver generosamente a vossa vocação humana e cristã no matrimônio (cfr. Gaudium et Spes, nn. 1, 47-52), e de colaborar com o grande desígnio de amor de Deus no mundo, de formar um povo « para o louvor da sua glória » (Ef 1, 14).

Ele os criou homem e mulher

Como a Sagrada Escritura nos ensina, o matrimônio, antes de ser um sacramento, é uma grande realidade terrestre: « Deus criou o homem à Sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher » (Gên 1, 27). É preciso recordar todos os dias esta primeira página da Bíblia, se quisermos compreender o que é, o que deve ser um casal humano, um lar. As análises psicológicas, as pesquisas psicanalíticas, os inquéritos sociológicos e as reflexões filosóficas poderão, sem dúvida, contribuir para dar esclarecimentos sobre a sexualidade e sobre o amor humano, mas cegar-nos-iam se esquecessem este ensinamento fundamental que nos foi dado desde a origem: a dualidade dos sexos foi querida por Deus, para que o homem e a mulher, juntos, fossem imagem de Deus, e, como Ele, nascente de vida: « crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra » (Gên 1, 28). Uma leitura atenta dos Profetas, dos Livros Sapienciais e do Novo Testamento, mostra-nos, o significado desta realidade fundamental e ensina-nos a não a limitar ao desejo físico e à atividade genital, mas a descobrir nela o caráter complementar dos valores do homem e da mulher, a grandeza e as fraquezas do amor conjugal, a sua fecundidade e a sua abertura ao mistério do desígnio do amor de Deus.

Educação num clima erótico

Este ensinamento conserva ainda hoje todo o seu valor e imuniza-nos contra as tentações de um erotismo destruidor. Este fenômeno aberrante deveria, pelo menos, pôr-nos em guarda contra o perigo de uma civilização materialista, que pressente, obscuramente, neste domínio misterioso, como que o último refúgio de um valor sagrado. Saberemos nós arrancá-lo ao abuso da sensualidade? Saibamos pelo menos, perante uma expansão cinicamente levada a efeito por algumas indústrias ávidas, aniquilar os seus efeitos nefastos nos jovens. Sem obstáculos nem compressões, trata-se de favorecer uma educação que ajude a criança e o adolescente a tomarem consciência, progressivamente, da força dos impulsos que despertam neles, e ajuda-los a integra-los na construção da sua personalidade, de dominar as suas forças ascendentes, para realizarem uma completa maturidade afetiva e também sexual, de se prepararem, assim, para o dom de si, num amor que lhes dará a sua verdadeira dimensão, de maneira exclusiva e definitiva.

Unidade e indissolubilidade do matrimônio

doc1A união do homem e da mulher difere, na verdade, radicalmente, de todas as outras associações humanas e constitui uma realidade singular, ou seja, a união fundada na doação mútua dos cônjuges: « e os dois serão uma só carne » (Gên 2, 24). Unidade, cuja indissolubilidade irrevogável é o selo colocado sobre a união livre e mútua de duas pessoas dotadas de liberdade que, « portanto, já não são dois, mas uma só carne » (Mt 19, 6): uma só carne, um casal, poder-se-ia quase dizer, um único ser, cuja unidade assumirá uma forma social e jurídica por meio do matrimônio e se manifestará por uma comunhão de vida, cuja expressão fecunda é o dom carnal. Quer dizer que, com o matrimônio, os esposos exprimem uma vontade de se pertencerem um ao outro para toda a vida, e de contraírem, para este fim, um vínculo objetivo, cujas leis e exigências, muito longe de serem um servilismo, são uma garantia e uma proteção, um verdadeiro amparo, como vós próprios verificais nas vossas experiências quotidianas.

Amor conjugal

Na verdade, a doação não é uma fusão. Cada uma das personalidades permanece distinta e, longe de se dissolver com a doação mútua, afirma-se e aperfeiçoa-se, aumenta com o decorrer da vida conjugal, segundo esta grande lei do amor: dar-se um ao outro para se darem juntamente. O amor é, realmente, o cimento que dá solidez a esta comunidade de vida e o entusiasmo que a arrasta para uma plenitude cada vez mais perfeita. Todo o ser participa dela, nas profundezas do seu mistério pessoal e dos seus componentes afetivos, sensíveis, carnais e também espirituais, até constituir, cada vez melhor, esta imagem de Deus, que o casal tem a missão de encarnar na sucessão dos dias, tecendo-a com as suas alegrias e com as suas preocupações, dado que o amor é, realmente, mais do que o amor. Não há nenhum amor conjugal que não seja, na sua exultação, entusiasmo para o infinito, e que não deseje ser, no seu entusiasmo, total, fiel, exclusivo e fecundo (cfr. Humanae Vitae, n. 9). É nesta perspectiva que o desejo encontra o seu pleno significado. Meio de expressão e, também, de conhecimento e de comunhão, o ato conjugal mantém e fortifica o amor e a sua fecundidade, leva o casal ao seu pleno desenvolvimento: torna-se, à imagem de Deus, fonte de vida.

O cristão tem consciência disto: o amor humano é bom na sua origem e, embora esteja, como tudo o que existe no homem, ferido e deformado pelo pecado, encontra em Cristo a sua salvação e a sua redenção. Aliás, não é esta a lição de vinte séculos de história cristã? Quantos casais encontraram, na sua vida conjugal, o caminho da santidade, nesta comunidade de vida, que é a única fundada num sacramento!

Criação nova

Obra do Espírito Santo (cfr. Tit 3, 5), a regeneração batismal faz de nós criaturas novas (cfr. Gál 6, 15), para que « assim caminhemos nós, também, numa vida nova » (Rom 6, 4). Nesta grande empresa de renovação de todas as coisas em Cristo, o matrimónio, também ele purificado e renovado, torna-se uma realidade nova, um sacramento da Nova Aliança. E, eis que no limiar do Novo Testamento, como na entrada do Antigo, se forma um casal. Mas, ao passo que aquele, formado por Adão e Eva, foi a fonte do mal que se espalhou sobre o mundo, o de José e Maria é a plenitude de onde a santidade se expande sobre toda a terra. O Salvador começou a Sua obra salvífica com esta união virginal e santa, onde se manifesta a sua vontade todo-poderosa de purificar e santificar a família, este santuário do amor e este berço da vida.

União «no Senhor»

doc2Desde então tudo se transformou. Dois cristãos querem casar-se; São Paulo adverte-os: «…não vos pertenceis a vós mesmos » (1 Cor 6, 19). Membros de Cristo, um e outro « no Senhor », a sua união realiza-se também « no Senhor », como a da Igreja. E é por esta razão que ela é « um grande mistério » (Ef 5, 32), um sinal que não só representa o mistério da união de Cristo com a Igreja, mas também o encerra e irradia por meio da graça do Espírito Santo, que é a sua alma vivificadora. Porque é exatamente o amor, próprio de Deus, que ele nos comunica, para que nós o amemos e para que também o amemos com este amor divino: « assim como Eu vos amei, vós também vos deveis amar uns aos outros » (Jo 13, 34). Até as manifestações da sua ternura são, para os esposos cristãos, penetradas deste amor que eles vão haurir no coração de Deus. E, se a nascente humana corresse o perigo de secar, a sua nascente divina é tão inesgotável como as profundezas insondáveis da ternura de Deus. Por outras palavras, a caridade conjugal, forte e rica, tende para essa comunhão íntima. Realidade interior e espiritual, ela transforma a comunidade de vida dos esposos naquilo « que bem pode chamar-se Igreja doméstica» (Lumen Gentium, n. 11), uma verdadeira «célula da Igreja», como disse o Nosso saudoso predecessor João XXIII, à vossa peregrinação de 3 de Maio de 1959 (Discorsi, messaggi, colloqui dei Santo Padre Giovanni XXIII, I, Tip. Pol. Vat., p. 298), célula de base, célula germinal, sem dúvida a mais pequena, mas também a mais fundamental do organismo eclesial.

Plenitude do amor cristão

Este é o mistério em que está radicado o amor conjugal e que ilumina todas as suas manifestações. Mistério da Encarnação, que exalta as nossas virtudes humanas, penetrando-as internamente. Longe de as menosprezar, o amor cristão condu-las, verdadeiramente, à sua plenitude, com paciência, generosidade, força e doçura, como São Francisco de Sales gostava de sublinhar, quando fazia o elogio da vida conjugal de São Luís (Introduction à la vie devote, IIIe Partie, cap. 38, Avis pour les gens mariés, em: Oeuvres, Bibliothèque de la Pléiade, Paris, Nrf, Gallimard, 1969, p. 237). Porque, se a fascinação da carne é perigosa, a tentação do angelicalismo não o é menos, e uma realidade desprezada não demora muito a reivindicar o seu lugar. Também, conscientes de guardar os seus tesouros em vasos de argila (cfr. 2 Cor 4, 7), os esposos cristãos procurem esforçar-se, com humilde fervor, por traduzir, na sua vida conjugal, as recomendações do Apóstolo São Paulo: «os vossos corpos são membros de Cristo…, o vosso corpo é templo do Espírito Santo…; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo » (1 Cor 6, 15. 19. 20). « Casados no Senhor», os esposos não podem unir-se, daí por diante, senão no nome de Cristo, a quem eles pertencem e por quem eles devem trabalhar como seus membros ativos. Eles não podem, portanto, dispor do seu corpo, especialmente porque ele é princípio de geração, senão no espírito e para a obra de Cristo, porque eles são membros de Cristo.

Fecundidade do lar

doc3« Colaboradores livres e responsáveis do Criador » (Humanae Vitae, n. 1), os esposos cristãos veem a sua fecundidade carnal adquirir assim uma nobreza nova. O impulso, que os leva a unirem-se, é portador de vida e permite que deem filhos a Deus. Tornando-se pai e mãe, os esposos descobrem com admiração, na fonte baptismal, que o seu filho, a partir daquele momento, é filho de Deus nascido « da água e do Espírito » (Jo 3, 5) e que lhes é confiado para que eles velem pelo seu crescimento físico e moral e também pela eclosão e desenvolvimento nele do « homem novo » (Ef 4, 24). Este filho já não é só o que eles veem, mas também o que eles creem: « uma infinidade de mistério e de amor, que nos deslumbraria se o víssemos face a face » (Emmanuel Mounier à sa femme Paulette, a 20 de Março de 1940, em: Oeuvres, t. IV, Paris, Seuil, 1963, p. 662). Também a educação se torna um verdadeiro serviço de Cristo, segundo a sua própria palavra: «o que fizestes a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes » (Mt 25, 40). E, se algumas vezes acontece que o adolescente se fecha à acção educativa dos pais, estes participam então dolorosamente, na sua própria carne, da paixão de Cristo perante as recusas do homem.

Mistério da paternidade

Dilectos pais, Deus não vos confiou uma tarefa tão importante (cfr.  Gravissimum Educationis) sem vos ter dado um dom prodigioso, o seu amor de Pai. Por meio dos pais que amam o próprio filho que vive em Cristo, é o amor do Pai que se difunde no seu Filho muito amado (cfr. Jo 4, 7-11). Por meio da sua autoridade, é a Sua autoridade que se exerce. Por meio da sua dedicação, manifesta-se a Sua providência de «…Pai, do qual toda a família, nos céus como na terra, toma o nome » (cfr. Ef 3, 14-15)» Também a criancinha batizada, por meio do amor dos seus pais, descobre o amor paternal de Deus e, diz-nos o Concílio, faz « a primeira experiência da Igreja » (Grav. Educationis, n. 3). Certamente só crescendo terá consciência disso, mas desde já o amor divino, por meio da ternura do seu pai e da sua mãe, faz desabrochar e desenvolver nela o seu ser de filho de Deus. Quer dizer que é o esplendor da vossa vocação, que S. Tomás aproxima justamente do ministério sacerdotal: «Algumas pessoas propagam e mantêm a vida espiritual por um ministério unicamente espiritual: é o caso do sacramento da Ordem; outras, fazem-no com um ministério tanto corporal como espiritual: é o caso do sacramento do Matrimônio, que une o homem e a mulher para que tenham prole e a eduquem para o culto de Deus » (Contra Gentiles IV, 58, trad. Bernier-Kerouanton, Paris, Lethielleux, 1957. p. 313).

Dever de hospitalidade

Os casais que conhecem a dura experiência de não ter filhos, também eles são chamados a cooperar no aumento do Povo de Deus, de diversos modos. Esta manhã quereríamos chamar a vossa atenção para a hospitalidade, que é uma forma eminente da missão apostólica do casal. A recomendação de S. Paulo aos Romanos: exercei a hospitalidade com solicitude (cfr. Rom 12,13), não é, sobretudo, aos lares que ela se dirige e, ao formulá-la, não pensava, também ele, na hospitalidade do lar de Áquila e Priscila, de que ele tinha sido o primeiro beneficiado e que em seguida devia acolher a assembleia cristã? (cfr. Act 18, 2-3; Rom 16, 3-4; 1 Cor 16, 19). Nos nossos tempos, tão difíceis para muitos, que graça imensa é sermos acolhidos « nesta pequena Igreja », segundo a palavra de S. João Crisóstomo (Homilia 20 sobre o versículo 5, da Carta aos Efésios, 22-24, n. 6; em: PG 62, 135-140), entrar na sua ternura, descobrir a sua maternidade, experimentar a sua misericórdia, sobretudo porque um lar cristão é «o vulto risonho e doce da Igreja » (Expressão de um casal cristão das Equipas de Nossa Senhora, citada por H. Caffarel, em: l’Anneau d’Or, n. 111-112, Le mariage, ce grand sacrement, Paris, Feu nouveau, 1963, p. 282). É um apostolado insubstituível, que vos compete exercer generosamente, um apostolado do casal para o qual a formação dos noivos, o auxílio aos recém-casados e o socorro aos casais em crise constituem domínios privilegiados. Vós, amparando-vos um no outro, de quais tarefas não sois capazes na Igreja e na sociedade? Apelamos para vós com grande confiança e muita esperança: «a família cristã proclama, em alta voz, tanto as virtudes presentes do Reino de Deus como a esperança da vida eterna. Assim, o seu exemplo e o seu testemunho acusam o mundo de pecado e iluminam aqueles que procuram a verdade» (Lumen Gentium, n. 35).

Caminho no amor

Diletos filhos e filhas, vós estais bem convencidos de que só vivendo a graça do sacramento do Matrimónio caminhais com « um amor incansável e generoso » (Ibid n. 41) para esta santidade a que todos nós somos chamados pela graça (cfr., Mt 5, 48; 1 Tes 4, 3; Ef 1, 4), e não por uma exigência arbitrária, mas pelo amor de um Pai que quer o pleno desenvolvimento e a felicidade total dos seus filhos. De resto, para a alcançar, não fostes abandonados a vós mesmos, porque Cristo e o Espírito Santo, « estas duas mãos de Deus », segundo a expressão de Santo Irineu, trabalham por vós sem descanso (cfr. Adversus Haereses IV, 28, 4 em: PG 7, 1.200). Não vos deixeis, portanto, desviar pelas tentações, pelas dificuldades, pelas provações que aparecerem pelo caminho, sem o temor de ir, quando for preciso, contra a corrente do que se diz e pensa num mundo de atitudes paganizadas. São Paulo advertia-nos: «não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente » (Rom 12, 2). Nunca vos desencorajeis nos momentos de fraqueza: o nosso Deus é um Pai cheio de ternura e de bondade, cheio de solicitude e transbordante de amor pelos seus filhos, que, algumas vezes, encontram dificuldades no seu caminho. E a Igreja é a mãe que vos quer ajudar a viver, toda a vida, este ideal do matrimónio cristão, do qual ela vos lembra, com bondade, todas as exigências.

Pensar, querer e agir justamente

Diletos filhos, capelães das Equipas de Nossa Senhora: vós sabeis, por uma longa e rica experiência, que o vosso celibato consagrado vos torna particularmente disponíveis, para serdes, junto dos lares, no seu caminho para a santidade, as testemunhas ativas do amor do Senhor na Igreja. Com o decorrer dos dias, vós ajudai-los a «caminhar na luz » (cfr. 1 Jo 1, 7): a pensar justamente, quer dizer, a apreciar o seu comportamento na verdade; a querer justamente, quer dizer, a orientar, como homens responsáveis, a própria vontade para o bem; a agir justamente, quer dizer, a colocar progressivamente a sua vida, por meio dos acasos da existência, em uníssono com este ideal do matrimónio cristão que eles seguem generosamente. Quem o pode ignorar ? E pouco a pouco que o ser humano chega a hierarquizar e integrar as suas tendências múltiplas, até as ordenar harmoniosamente nesta virtude de pureza conjugal, onde o casal encontra o seu pleno desenvolvimento humano e cristão. Esta obra de libertação, porque existe uma, é o fruto da verdadeira liberdade dos filhos de Deus, cuja consciência pede, por sua vez, que seja respeitada, educada e formada, num clima de confiança e não de angústia, onde as leis morais, longe de terem a frieza desumana de uma objetividade abstrata, existem para guiar o casal no seu caminho. Quando, de facto, os esposos se esforçam, paciente e humildemente, sem se deixarem desencorajar pelos contratempos, por viver verdadeiramente as exigências profundas de um amor santificado, que as regras morais lhes fazem recordar, então estas leis deixarão de ser rejeitadas como obstáculos, mas serão reconhecidas como um valioso auxílio.

A boa-nova aos lares

O caminho dos esposos, como toda a vida humana, tem muitas etapas, comportando fases difíceis e dolorosas — tendes prova disso com o passar dos anos. Mas é preciso dizê-lo em voz alta: a angústia e o medo nunca deveriam habitar nas almas de boa- vontade, porque afinal, não é o Evangelho uma boa-nova também para os casais, e uma mensagem que, sendo exigente, não é menos profundamente libertadora? Ter consciência de que ainda não se conquistou a própria liberdade interior, que se está ainda submetido ao impulso das próprias tendências, descobrir-se como incapaz de respeitar, dum momento para o outro, a lei moral, num domínio tão fundamental, suscita, naturalmente, uma reação de angústia. É, porém, o momento decisivo, em que o cristão, na sua desordem, em vez de se abandonar à revolta estéril e destruidora, acede na humildade à descoberta perturbadora do homem perante Deus, um pecador diante do amor de Cristo Salvador.

Mistério pascal

A partir desta tomada de consciência radical, todo o progresso da vida moral se torna atraente, os casais encontram-se também «evangelizados» no seu íntimo, os esposos descobrem «com temor e tremor » (Fil 2, 12), mas também com uma alegria admirada, que no seu matrimónio, como na união de Cristo com a Igreja, é o mistério pascal da morte e da ressurreição que se realiza. No seio da grande Igreja, esta pequena Igreja conhece-se então por aquilo que na realidade é: uma comunidade fraca e às vezes pecadora e penitente, mas perdoada, a caminho para a santidade, « na paz de Deus, que sobrepuja todo o entendimento » (Fil 4, 7). Longe de estar, portanto, ao abrigo de qualquer fraqueza — « quem pensa estar de pé, veja que não caia » (1 Cor 10, 12) e de estar dispensado de um esforço perseverante, às vezes em condições cruéis que só o pensamento de tomar parte na paixão de Cristo pode levar a suportar (cfr. Col 1, 24), os esposos sabem, pelo menos, que as exigências da vida moral conjugal, que a Igreja lhes recorda, não são leis intoleráveis nem impraticáveis, mas um dom de Deus para os ajudar a aceder, por meio e além das suas fraquezas, às riquezas de um amor plenamente humano e cristão. Desde então, longe de ter o sentimento angustioso de se encontrarem como que fechados num beco sem saída e, segundo os casos, de se entregarem talvez à sensualidade, abandonando todas as práticas sacramentais, de se revoltarem contra a Igreja, considerando-a como inumana, ou de persistirem num esforço impossível, a custo de perderem a harmonia e o equilíbrio, isto é. a sobrevivência do lar, os esposos entregar-se-ão à esperança, na certeza de que todos os recursos da graça da Igreja estão à disposição para os ajudar a encaminharem-se para a perfeição do seu amor.

Apostolado do testemunho

São estas as perspectivas em que vivem os casais cristãos, em todo o mundo: a boa-nova da salvação em Cristo, progredindo para a santidade no matrimónio e por meio dele, com a luz, a força e a alegria do Salvador. Tais são também, da mesma maneira, as maiores orientações do apostolado das Equipas de Nossa Senhora, a começar pelo testemunho da sua própria vida, cuja força de persuasão é tão grande. Inquieto e febril, o nosso mundo oscila entre o medo e a esperança, e numerosos jovens entram vacilantes no caminho que se abre diante deles. Que isto constitua para vós um estímulo e um apelo. Com a força de Cristo, vós podeis e, portanto, deveis realizar grandes coisas. Meditai a sua palavra, recebei a sua graça na oração e nos sacramentos da Penitência e da Eucaristia, confortai-vos uns aos outros, testemunhando com simplicidade e discrição a vossa alegria. Um homem e uma mulher que se amam, um sorriso de criança, a paz de um lar: oração sem palavras, mas tão extraordinariamente persuasiva, onde todos os homens podem já pressentir, por transparência, o reflexo de um outro amor e a sua chamada infinita.

A caminho de uma nova primavera da Igreja

Queridos filhos, a Igreja, de que vós sois as células vivas e ativas, dá, por meio dos vossos lares, como que uma prova experimental do poder do amor salvador, e produz os seus frutos de santidade. Casais atribulados, casais felizes, casais fiéis, vós preparais para a Igreja e para o mundo uma nova primavera, cujos primeiros rebentos nos fazem estremecer de alegria. Ao ver-vos e ao pensarmos nos milhões de casais cristãos espalhados por todo o mundo, invade-Nos uma esperança irreprimível e, em nome do Senhor, dizemos-vos com confiança: «Brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que está nos Céus» (Mt 5, 16). Em seu nome, invocamos sobre vós e os vossos queridos filhos, sobre todos os casais das Equipas de Nossa Senhora e os seus Capelães, especialmente sobre o estimado Padre Caffarel, a profusão das graças divinas, em penhor das quais vos damos, de todo o coração, uma ampla Bênção Apostólica.

 

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Conselhos de Bento XVI aos seminaristas

Queridos Seminaristas,

Em dezembro de 1944, quando fui chamado para o serviço militar, o comandante de companhia perguntou a cada um de nós a profissão que sonhava ter no futuro. Respondi que queria tornar-me sacerdote católico. O subtenente replicou: Nesse caso, convém-lhe procurar outra coisa qualquer; na nova Alemanha, já não há necessidade de padres. Eu sabia que esta «nova Alemanha» estava já no fim e que, depois das enormes devastações causadas por aquela loucura no país, mais do que nunca haveria necessidade de sacerdotes. Hoje, a situação é completamente diversa; porém de vários modos, mesmo em nossos dias, muitos pensam que o sacerdócio católico não seja uma «profissão» do futuro, antes pertenceria já ao passado. Contrariando tais objeções e opiniões, vós, queridos amigos, decidistes-vos a entrar no Seminário, encaminhando-vos assim para o ministério sacerdotal na Igreja Católica. E fizestes bem, porque os homens sempre terão necessidade de Deus – mesmo na época do predomínio da técnica no mundo e da globalização –, do Deus que Se mostrou a nós em Jesus Cristo e nos reúne na Igreja universal, para aprender, com Ele e por meio d’Ele, a verdadeira vida e manter presentes e tornar eficazes os critérios da verdadeira humanidade. Sempre que o homem deixa de ter a noção de Deus, a vida torna-se vazia; tudo é insuficiente. Depois o homem busca refúgio na alienação ou na violência, ameaça esta que recai cada vez mais sobre a própria juventude. Deus vive; criou cada um de nós e, por conseguinte, conhece a todos. É tão grande que tem tempo para as nossas coisas mais insignificantes: «Até os cabelos da vossa cabeça estão contados». Deus vive, e precisa de homens que vivam para Ele e O levem aos outros. Sim, tem sentido tornar-se sacerdote: o mundo tem necessidade de sacerdotes, de pastores hoje, amanhã e sempre enquanto existir.

O Seminário é uma comunidade que caminha para o serviço sacerdotal. Nestas palavras, disse já algo de muito importante: uma pessoa não se torna sacerdote, sozinha. É necessário a «comunidade dos discípulos», o conjunto daqueles que querem servir a Igreja de todos. Com esta carta, quero evidenciar – olhando retrospectivamente também para o meu tempo de Seminário – alguns elementos importantes para o vosso caminho a fazer nestes anos.

1. Quem quer tornar-se sacerdote, deve ser sobretudo um «homem de Deus», como o apresenta São Paulo (1 Tm 6, 11). Para nós, Deus não é uma hipótese remota, não é um desconhecido que se retirou depois do «big-bang». Deus mostrou-Se em Jesus Cristo. No rosto de Jesus Cristo, vemos o rosto de Deus. Nas suas palavras, ouvimos o próprio Deus a falar conosco. Por isso, o elemento mais importante no caminho para o sacerdócio e ao longo de toda a vida sacerdotal é a relação pessoal com Deus em Jesus Cristo. O sacerdote não é o administrador de uma associação qualquer, cujo número de membros se procura manter e aumentar. É o mensageiro de Deus no meio dos homens; quer conduzir a Deus, e assim fazer crescer também a verdadeira comunhão dos homens entre si. Por isso, queridos amigos, é muito importante aprenderdes a viver em permanente contato com Deus. Quando o Senhor fala de «orar sempre», naturalmente não pede para estarmos continuamente a rezar por palavras, mas para conservarmos sempre o contato interior com Deus. Exercitar-se neste contato é o sentido da nossa oração. Por isso, é importante que o dia comece e acabe com a oração; que escutemos Deus na leitura da Sagrada Escritura; que Lhe digamos os nossos desejos e as nossas esperanças, as nossas alegrias e sofrimentos, os nossos erros e o nosso agradecimento por cada coisa bela e boa, e que deste modo sempre O tenhamos diante dos nossos olhos como ponto de referência da nossa vida. Assim tornamo-nos sensíveis aos nossos erros e aprendemos a trabalhar para nos melhorarmos; mas tornamo-nos sensíveis também a tudo o que de belo e bom recebemos habitualmente cada dia, e assim cresce a gratidão. E, com a gratidão, cresce a alegria pelo fato de que Deus está perto de nós e podemos servi-Lo.

2. Para nós, Deus não é só uma palavra. Nos sacramentos Ele se dá pessoalmente a nós, através de elementos corporais. O centro da nossa relação com Deus e da configuração da nossa vida é a Eucaristia; celebrá-la com íntima participação e assim encontrar Cristo em pessoa deve ser o centro de todas as nossas jornadas. Para além do mais, São Cipriano interpretou a súplica do Evangelho «o pão nosso de cada dia nos dai hoje», dizendo que o pão «nosso», que, como cristãos, podemos receber na Igreja, é precisamente Jesus eucarístico. Por conseguinte, na referida súplica do Pai Nosso, pedimos que Ele nos conceda cada dia este pão «nosso»; que o mesmo seja sempre o alimento da nossa vida, que Cristo ressuscitado, que Se dá na Eucaristia, plasme verdadeiramente toda a nossa vida com o esplendor do seu amor divino. Para uma reta celebração eucarística, é necessário aprendermos também a conhecer, compreender e amar a liturgia da Igreja na sua forma concreta. Na liturgia, rezamos com os fiéis de todos os séculos; passado, presente e futuro encontram-se num único grande coro de oração. A partir do meu próprio caminho, posso afirmar que é entusiasmante aprender a compreender pouco a pouco como tudo isto foi crescendo, quanta experiência de fé há na estrutura da liturgia da Missa, quantas gerações a formaram rezando.

3. Importante é também o sacramento da Penitência. Ensina a olhar-me do ponto de vista de Deus e obriga-me a ser honesto comigo mesmo; leva-me à humildade. Uma vez o Cura d’Ars disse: Pensais que não tem sentido obter a absolvição hoje, sabendo, entretanto, que amanhã fareis de novo os mesmos pecados. Mas – assim disse ele – o próprio Deus neste momento esquece os vossos pecados de amanhã, para vos dar a sua graça hoje. Embora tenhamos de lutar continuamente contra os mesmos erros, é importante opor-se ao embrutecimento da alma, à indiferença que se resigna com o fato de sermos feitos assim. Na grata certeza de que Deus me perdoa sempre de novo, é importante continuar a caminhar, sem cair em escrúpulos, mas também sem cair na indiferença, que já não me faria lutar pela santidade e o aperfeiçoamento. E, deixando-me perdoar, aprendo também a perdoar aos outros; reconhecendo a minha miséria, também me torno mais tolerante e compreensivo com as fraquezas do próximo.

4. Mantende em vós também a sensibilidade pela piedade popular, que, apesar de diversa em todas as culturas, é sempre também muito semelhante, porque, no final de contas, o coração do homem é o mesmo. É certo que a piedade popular tende para a irracionalidade e, às vezes, talvez mesmo para a exterioridade. No entanto, excluí-la, é completamente errado. Através dela, a fé entrou no coração dos homens, tornou-se parte dos seus sentimentos, dos seus costumes, do seu sentir e viver comum. Por isso a piedade popular é um grande patrimônio da Igreja. A fé fez-se carne e sangue. Seguramente a piedade popular deve ser sempre purificada, referida ao centro, mas merece a nossa estima; de modo plenamente real, ela faz de nós mesmos «Povo de Deus».

5. O tempo no Seminário é também e sobretudo tempo de estudo. A fé cristã possui uma dimensão racional e intelectual, que lhe é essencial. Sem tal dimensão, a fé deixaria de ser ela mesma. Paulo fala de uma «norma da doutrina», à qual fomos entregues no Batismo (Rm 6, 17). Todos vós conheceis a frase de São Pedro, considerada pelos teólogos medievais como a justificação para uma teologia elaborada racional e cientificamente: «Sempre prontos a responder (…) a todo aquele que vos perguntar “a razão” (logos) da vossa esperança» (1 Pe 3, 15). Adquirir a capacidade para dar tais respostas é uma das principais funções dos anos de Seminário. Tudo o que vos peço insistentemente é isto: Estudai com empenho! Fazei render os anos do estudo! Não vos arrependereis. É certo que muitas vezes as matérias de estudo parecem muito distantes da prática da vida cristã e do serviço pastoral. Mas é completamente errado pôr-se imediatamente e sempre a pergunta pragmática: Poderá isto servir-me no futuro? Terá utilidade prática, pastoral? É que não se trata apenas de aprender as coisas evidentemente úteis, mas de conhecer e compreender a estrutura interna da fé na sua totalidade, de modo que a mesma se torne resposta às questões dos homens, os quais, do ponto de vista exterior, mudam de geração em geração todavia, no fundo, permanecem os mesmos. Por isso, é importante ultrapassar as questões volúveis do momento para se compreender as questões verdadeiras e próprias e, deste modo, perceber também as respostas como verdadeiras respostas. É importante conhecer a fundo e integralmente a Sagrada Escritura, na sua unidade de Antigo e Novo Testamento: a formação dos textos, a sua peculiaridade literária, a gradual composição dos mesmos até se formar o cânon dos livros sagrados, a unidade dinâmica interior que não se nota à superfície, mas é a única que dá a todos e cada um dos textos o seu pleno significado. É importante conhecer os Padres e os grandes Concílios, onde a Igreja assimilou, refletindo e acreditando, as afirmações essenciais da Escritura. E poderia continuar assim: aquilo que designamos por dogmática é a compreensão dos diversos conteúdo da fé na sua unidade, mais ainda, na sua derradeira simplicidade, pois cada um dos detalhes, no fim de contas, é apenas explanação da fé no único Deus, que Se manifestou e continua a manifestar-Se a nós. Que é importante conhecer as questões essenciais da teologia moral e da doutrina social católica, não será preciso que eu vos diga expressamente. Quão importante seja hoje a teologia ecuménica, conhecer as várias comunidades cristãs, é evidente; e o mesmo se diga da necessidade duma orientação fundamental sobre as grandes religiões e, não menos importante, sobre a filosofia: a compreensão daquele indagar e questionar humano ao qual a fé quer dar resposta. Mas aprendei também a compreender e – ouso dizer – a amar o direito canônico na sua necessidade intrínseca e nas formas da sua aplicação prática: uma sociedade sem direito seria uma sociedade desprovida de direitos. O direito é condição do amor. Agora não quero continuar o elenco, mas dizer-vos apenas e uma vez mais: Amai o estudo da teologia e segui-o com diligente sensibilidade para ancorardes a teologia à comunidade viva da Igreja, a qual, com a sua autoridade, não é um polo oposto à ciência teológica, mas o seu pressuposto. Sem a Igreja que crê, a teologia deixa de ser ela própria e torna-se um conjunto de disciplinas diversas sem unidade interior.

6. Os anos no Seminário devem ser também um tempo de maturação humana. Para o sacerdote, que terá de acompanhar os outros ao longo do caminho da vida e até às portas da morte, é importante que ele mesmo tenha posto em justo equilíbrio coração e intelecto, razão e sentimento, corpo e alma, e que seja humanamente «íntegro». Por isso, a tradição cristã sempre associou às «virtudes teologais» as «virtudes cardeais», derivadas da experiência humana e da filosofia, e também em geral a sã tradição ética da humanidade. Di-lo, de maneira muito clara, Paulo aos Filipenses: «Quanto ao resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro, nobre e justo, tudo o que é puro, amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor, isto deveis ter no pensamento» (4, 8). Faz parte deste contexto também a integração da sexualidade no conjunto da personalidade. A sexualidade é um dom do Criador, mas também uma função que tem a ver com o desenvolvimento do próprio ser humano. Quando não é integrada na pessoa, a sexualidade torna-se banal e ao mesmo tempo destrutiva. Vemos isto, hoje, em muitos exemplos da nossa sociedade. Recentemente, tivemos de constatar com grande mágoa que sacerdotes desfiguraram o seu ministério, abusando sexualmente de crianças e adolescentes. Em vez de levar as pessoas a uma humanidade madura e servir-lhes de exemplo, com os seus abusos provocaram devastações, pelas quais sentimos profunda pena e desgosto. Por causa de tudo isto, pode ter-se levantado em muitos, e talvez mesmo em vós próprios, esta questão: se é bom fazer-se sacerdote, se o caminho do celibato é sensato como vida humana. Mas o abuso, que há que reprovar profundamente, não pode desacreditar a missão sacerdotal, que permanece grande e pura. Graças a Deus, todos conhecemos sacerdotes convincentes, plasmados pela sua fé, que testemunham que, neste estado e precisamente na vida celibatária, é possível chegar a uma humanidade autêntica, pura e madura. Entretanto o sucedido deve tornar-nos mais vigilantes e solícitos, levando precisamente a interrogarmo-nos cuidadosamente a nós mesmos diante de Deus ao longo do caminho rumo ao sacerdócio, para compreender se este constitui a sua vontade para mim. É função dos padres confessores e dos vossos superiores acompanhar-vos e ajudar-vos neste percurso de discernimento. É um elemento essencial do vosso caminho praticar as virtudes humanas fundamentais, mantendo o olhar fixo em Deus que Se manifestou em Cristo, e deixar-se incessantemente purificar por Ele.

7. Hoje os princípios da vocação sacerdotal são mais variados e distintos do que nos anos passados. Muitas vezes a decisão para o sacerdócio desponta nas experiências de uma profissão secular já assumida. Frequentemente cresce nas comunidades, especialmente nos movimentos, que favorecem um encontro comunitário com Cristo e a sua Igreja, uma experiência espiritual e a alegria no serviço da fé. A decisão amadurece também em encontros muito pessoais com a grandeza e a miséria do ser humano. Deste modo os candidatos ao sacerdócio vivem muitas vezes em continentes espirituais completamente diversos; poderá ser difícil reconhecer os elementos comuns do futuro mandato e do seu itinerário espiritual. Por isso mesmo, o Seminário é importante como comunidade em caminho que está acima das várias formas de espiritualidade. Os movimentos são uma realidade magnífica; sabeis quanto os aprecio e amo como dom do Espírito Santo à Igreja. Mas devem ser avaliados segundo o modo como todos se abrem à realidade católica comum, à vida da única e comum Igreja de Cristo que permanece uma só em toda a sua variedade. O Seminário é o período em que aprendeis um com o outro e um do outro. Na convivência, por vezes talvez difícil, deveis aprender a generosidade e a tolerância não só vos suportando mutuamente, mas também vos enriquecendo um ao outro, de modo que cada um possa contribuir com os seus dotes peculiares para o conjunto, enquanto todos servem a mesma Igreja, o mesmo Senhor. Esta escola da tolerância, antes do aceitar-se e compreender-se na unidade do Corpo de Cristo, faz parte dos elementos importantes dos anos de Seminário.

Queridos seminaristas! Com estas linhas, quis mostrar-vos quanto penso em vós precisamente nestes tempos difíceis e quanto estou unido convosco na oração. Rezai também por mim, para que possa desempenhar bem o meu serviço, enquanto o Senhor quiser. Confio o vosso caminho de preparação para o sacerdócio à proteção materna de Maria Santíssima, cuja casa foi escola de bem e de graça. A todos vos abençoe Deus omnipotente Pai, Filho e Espírito Santo.

Vaticano, 18 de Outubro – Festa de São Lucas, Evangelista – do ano 2010

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/letters/2010/documents/hf_ben-xvi_let_20101018_seminaristi_po.html

 

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Eu tenho 17 anos, eu posso entrar no Seminário?

1-O valor não vem pelo número dos anos

(P. Corneille, Le Cid II, 2).

doc1São Francisco de Paula se tornou eremita com 14 anos e fundador da ordem religiosa dos Mínimos aos 19 anos. Santa Terezinha de Lisieux quis entrar no Carmelo aos 15 anos. Certo é que se nem todo mundo é São Francisco de Paula ou Santa Terezinha de Lisieux, mas o Senhor frequentemente chama muito jovem. Uma pesquisa de 2007 com todos os seminaristas franceses, mostrou que a idade do 1 ° Apelo a tornar-se padre foi percebido entre 4 e 10 anos em 25%, entre 11 e 20 : 57% , 21 e 30 anos 15% e acima de 30 anos: 2%.

« É bom ser chamado pelo Senhor jovem », testemunhou o cardeal Schönborn, arcebispo de Viena, Áustria, em 30 de setembro de 2009, durante um retiro sacerdotal em Ars. Ele mesmo se engajou na vida religiosa aos 18 anos, na Ordem de São Domingos, sua mãe achava que ele era « um pouco jovem ». Ele cita a resposta do Cura D’Ars: « Como é bom se doar a Deus desde a sua juventude ». »Não desencoraje os jovens se Jesus os chama! (…) Caminhar com Jesus é a melhor escola da vida ». Em contrapartida se dizemos ao jovem «vá antes ao mundo » faça uma experiência, arriscamos de ver « vocações que se esfriam, se quebram, porque não tivemos a coragem de chamá-los ».

2- Portanto, sim, tu podes entrar no seminário com 17 anos e mais exatamente no ano propedêutico, ano São José em Namur, Bélgica.

Trata-se de um ano de fundação, para continuar a se colocar um duplo discernimento: O Senhor te chama mesmo ao sacerdócio … na Comunidade Emanuel? Também lá que tu poderás colocar as bases de tua vida de oração e da vida comunitária.

3- Mas para entrar no ano São José é necessário que tenhas chegado a um grau suficiente de liberdade interior para responder livremente ao chamado do Senhor.

Então, às vezes, é melhor fazer antes a Escola de Evangelização, uma das ESM (Emmanuel School of Mission). Há atualmente 4 (quatro), todas internacionais: Paray-le-Monial (França), Altötting (Alemanha), Roma (Itália) e Manila (Filipinas). Lá tu receberás uma boa formação humana, intelectual e espiritual e um ardor para evangelizar.
Pode-se também te propor iniciar um ciclo de estudos seculares, com um acompanhamento vocacional, uma vida em um presbitério ou em uma casa de estudantes…

Às vezes os pais pensam: é necessário antes que ele conheça o mundo, a verdadeira vida! Mas por outro lado, esta vida supostamente real pode nos causar dano. E, além disso, não podemos conhecer tudo. Deus preencherá tuas faltas! Eu mesmo que entrei no ano São José aos 29 anos, portanto chamado há 12 anos, não me considero um padre melhor que um irmão que entrou aos 17 anos…

Para continuar a crescer na liberdade (os santos são livres), alguns seminaristas, que entraram jovem ao seminário, são convidados durantes seus estudos a fazer uma experiência missionária: com a FIDESCO (ONG internacional) em países em via de desenvolvimento, ou no “Rocher” no subúrbio (projeto missionário da Comunidade Emanuel que ajuda nas regiões pobres da França) ou em outros lugares missionários. Isso faz parte de sua formação sacerdotal. De qualquer forma, é necessário ter 25 anos para poder ser ordenado padre, salvo uma dispensa especial!

Padre Xavier Malle,
Pároco e Reitor do Santuário de Ile-Bouchard (França)

 

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Eu sou capaz de fazer os estudos para ser ordenado padre?

doc1Estes estudos podem dar medo. A entrada no seminário exige o nível médio completo. Mas se a formação não foi adequada, de pode buscar um reforço para que a aprendizagem não seja muito difícil.

http://seminariocentral.org.br/
www.seminariosaojose.org.br

Voltemos ao sentido destes longos estudos.

Por que passar 7 anos ou mais antes de ser ordenado padre? Há 3 razões principais:

1) Aprender para conhecer… conhecer para amar… o Cristo … os homens a quem o padre é enviado. E a matéria é vasta!

O Bem-aventurado papa João Paulo II escreveu em 1992 uma carta inteira sobre a formação dos futuros padres: Exortação Apostólica Pastores dabo vobis. Não hesite em a ler!

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_25031992_pastores-dabo-vobis_po.html

Seu capítulo 5 se intitula: Ele instituiu 12 para ser seus companheiros. Jesus primeiramente formou seus apóstolos antes de lançá-los na missão após Pentecostes.
A formação do seminarista possui 4 grandes domínios: humano, espiritual, intelectual e pastoral.

2) Um coração de padre, isso não se decreta, mas se forja na duração do tempo. Aprender a « amar as pessoas » … tal como elas são, e não tal qual nós gostaríamos que elas fossem!

3) É sempre um tempo de discernimento

O cardeal Newman escreveu a um antigo aluno em 1878 (citado pela revista “Il est Vivant”, n° 274, setembro 2010, página 24 – Revista francesa “Ele está vivo” da Comunidade Emanuel): Você não pode saber em um curto espaço de tempo, se é a vontade de Deus que você tenha uma vocação assim tão elevada como a que você aspira, você não deve, portanto se sentir decepcionado, se por uma razão qualquer, por exemplo, tua saúde o impedir de realizar.

Mas é necessário tenacidade e trabalho para ter sucesso nos estudos de Teologia! Não é fácil todos os dias… João Paulo II em sua carta aos padres Quinta-feira Santa de 1986 citou o Cura D’Ars como exemplo:

doc2O Cura d’Ars é modelo, em primeiro lugar, de vontade decidida, para aqueles que se preparam para o Sacerdócio. Numerosas provações que se sucederam poderiam ter feito com que perdesse a coragem: os efeitos da tormenta revolucionária, a reticências do pai, a necessidade de participar nos trabalhos agrícolas, as incertezas da vida militar. Mas, sobretudo, a sua grande dificuldade em aprender e memorizar não obstante a sua inteligência intuitiva e a sua viva sensibilidade – dificuldade, portanto, em seguir os cursos de teologia em latim, e para cúmulo, por este mesmo motivo, um adiamento no Seminário de Lyon. No entanto, tendo sido reconhecida a autenticidade da sua vocação, aos 29 anos ele pôde ser ordenado Sacerdote.

Pela sua tenacidade no trabalho e na oração, conseguiu superar todos os obstáculos e limitações, como o conseguiria mais tarde, na sua vida sacerdotal; recorde-se a preparação laboriosa das suas pregações, bem como a continuação, à noite, da leitura de obras de teólogos e de autores espirituais. Animava-o, desde a sua juventude, uma grande aspiração de “conquistar almas para Deus” tornando-se Sacerdote; e nisso era apoiado pela confiança do pároco da vizinha aldeia de Ecully, o qual, não duvidando da sua vocação, tomou ao seu cuidado uma boa parte da sua preparação. Que belo exemplo de coragem para aqueles que, nos dias de hoje, recebem a graça de serem chamados ao Sacerdócio!

Maria é o modelo de toda formação sacerdotal segundo o papa João Paulo II:

Todos os aspectos da formação sacerdotal podem ser submetidos à Maria, como a pessoa humana que, mais que todas outras, respondeu ao chamado de Deus; ela se faz serva e discípula da Palavra para conceber em seu coração e em seu seio o Verbo feito homem para doa-lo a humanidade; ela foi chamada a ser a educadora do único e eterno padre, que se fez dócil e submisso a sua autoridade maternal. Pelo seu exemplo e pela sua intercessão, a Virgem Santíssima continue a velar pelo crescimento das vocações e da vida sacerdotal na Igreja (PDV § 82).

 

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Eu sou capaz de ser padre?

A questão é legítima. Ela vem naturalmente após o chamado. Eu serei capaz? Sou digno deste chamado? A história da vocação dos patriarcas e dos profetas faz eco a esta questão. Foi assim na vocação de Moisés, em Êxodo 3, 1-12, segue um esquema de vocação em várias etapas:

doc1– Primeiramente Deus explode na vida de Moisés. Ele se revela no Sinal de uma sarça ardente, que queimava sem se consumir, e Moisés decide fazer um retorno para ver. Então Deus chama Moisés pelo nome: Moisés, Moisés.

– Depois num segundo momento, Deus revela sua misericórdia para seu povo: eu vi com o é maltratado meu povo… Eu escutei o grito dos Israelitas… Sim eu conheço seu sofrimento.

– Então vem o envio em missão: Eu te envio agora para o Faraó. Vai e faz sair do Egito Israel meu povo.

– Enfim a reação de Moisés: Eu? Quem sou eu para ir encontrar o Faraó?

O profeta Jeremias dirá: Ah Senhor, eu não sei falar, pois eu sou uma criança (Jr 1, 6)
Este sentimento é bom, trata-se de nossa pobreza, de nossa impotência, que a missão nos ultrapassará sempre. Mas Jesus pede a seus apóstolos de levar seus 5 pães e seus 2 peixes.

Eu estarei convosco, responde Deus a Moisés, e é essa a mesma resposta que dá a Jeremias: não tenha nenhum medo, pois eu estarei convosco (Jr 1, 8).
Nós, jamais estaremos à altura da missão. Mas Deus sim! Deus vem dirigir a cada um de nós uma palavra de confiança e de esperança; que nos dá a coragem para responder a seu apelo.

Mas é necessário sempre fazer um primeiro passo; aproximarmo-nos da sarça ardente. Responder ao Apelo de Deus requer uma parte de salto no desconhecido, como… o ponto de cristal de Indiana Jones!

 

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Como estou certo de poder ser fiel toda minha vida?

O que é que te faz colocar a questão? Será que Aquele que te escolheu, que te deu sinais e te chamou te deixará cair?

« Eu estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos. » A promessa de Jesus é formal. «Sim, mas… » tu dirás. Haverá situações delicadas, renúncias dolorosas, haverá a fadiga, as rejeições, as incompreensões, até mesmo traições, vem aqueles que pensávamos estar seguros… Pode ser que aconteça tudo isso, mas antes de tudo tu conhecerás a alegria profunda, indelével de estar com o Mestre. « O mestre está aí, e Ele te chama! »

doc1

Não te projetes num futuro que tu ignoras completamente. Não te perguntes mais como permanecer fiel. Se tu permaneceres ancorado, graças a um coração-a-coração cotidiano com o Senhor, se cada dia tu te maravilhares de ter recebido, das mãos de um sucessor dos apóstolos, o poder incrível de tornar Cristo presente sobre o altar afim de o doar a teus irmãos, então tu não tens nada a temer: tu serás fiel.

Pois é ele, o Cristo, e não uma ideia ou um projeto, que fará aliança contigo no dia de tua ordenação. Cada dia, pela tua humilde e confiante oração, tu serás revestido de Sua força e de Sua alegria. Uma alegria que nada poderá remover. A única condição: pedir cada manhã a graça de ser preservado do … ativismo e da rotina.

 

Dominique de LAFFOREST,
padre da Comunidade Emanuel em Nova York (EUA)

 

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O padre do Emanuel, « até as extremidades da Terra »

doc1Os padres e diáconos membros da Comunidade Emanuel são incardinados pelos bispos e ordinário que aceitam expressamente a presença da Comunidade em suas dioceses aplicando os presentes estatutos (Estatutos da Comunidade Emanuel § 24).

A nomeação do clero é decidida pelo bispo após consulta ao Moderador da Comunidade Emanuel. Ele leva em conta o carisma próprio da Comunidade e as possibilidades concretas de vida e apostolado comunitário (§28).

A missão do padre do Emanuel se desenvolve, portanto seja na sua diocese de incardinação, seja após um acordo entre bispos, numa diocese onde ele será enviado em missão, em comunidade com os irmãos e irmãs leigos e consagrados, e se possível em fraternidade de padres, por um tempo determinado. Em seguida colocamos a intuição do Concílio Vaticano II

Concílio Vaticano II – Presbyterorum Ordinis 10

10. O dom espiritual, recebido pelos presbíteros na ordenação, não os prepara para uma missão limitada e determinada, mas sim para a missão imensa e universal da salvação, «até aos confins da terra (Atos. 1, 8); de fato, todo o ministério sacerdotal participa da amplitude universal da missão confiada por Cristo aos Apóstolos. Com efeito, o sacerdócio de Cristo, de que os presbíteros se tornaram verdadeiramente participantes, dirige-se necessariamente a todos os povos e a todos os tempos, nem é circunscrito por nenhuns limites de sangue, nação ou idade, como já é prefigurado misteriosamente na pessoa de Melquisedec (cf. He 7,3). Lembrem-se, por isso, os presbíteros que devem tomar a peito a solicitude por todas as igrejas. Portanto, os presbíteros daquelas dioceses que têm maior abundância de vocações, mostrem-se de boa vontade preparados para, com licença ou a pedido do próprio Ordinário, exercer o seu ministério em regiões, missões ou obras que lutam com falta de clero.

Além disso, revejam-se de tal modo as normas da incardinação e excardinação que, mantendo-se embora em vigor esta antiquíssima instituição, corresponda, todavia, melhor às necessidades pastorais de hoje. Sempre que o método apostólico o exigir, facilite-se não só a conveniente distribuição dos sacerdotes, mas também as obras pastorais peculiares que, segundo os diversos agrupamentos sociais, devem ser levadas a cabo em alguma região, ou nação ou em qualquer parte do mundo. Para isso, podem ser erigidos com utilidade alguns seminários internacionais, dioceses especiais ou prelazias pessoais ou outras instituições, nas quais, da maneira a estabelecer em cada caso e salvo sempre os direitos do Ordinário de lugar, os presbíteros possam ser integrados ou incardinados para o bem comum de toda a Igreja.

Todavia, quanto for possível, não sejam enviados os presbíteros um a um para uma nova região, sobretudo se não conhecerem bem a sua língua e os seus costumes, mas, a exemplo dos discípulos de Cristo (cf. Lc 10,1), dois a dois ou três a três, de tal modo que se possam ajudar mutuamente. Convém igualmente que se cuide solicitamente da sua vida espiritual, bem como da sua saúde de alma e de corpo; e, quanto for possível, preparem-se lhes lugares e condições de trabalho, segundo as circunstâncias pessoais de cada um. Muito convém igualmente que aqueles que vão para outra nação, procurem conhecer bem não só a língua dela, mas também a índole psicológica e social própria do povo a quem desejam servir em humildade, comunicando com ele o mais perfeitamente possível, de tal modo que sigam o exemplo do Apóstolo Paulo, que pôde dizer de si mesmo: “Sendo livre com relação a todos, fiz-me servo de todos, para ganhar a muitos. Fiz-me judeu com os judeus, para ganhar os judeus…” (l Cor. 9, 19-20).

 

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Padre… e feliz?

doc1« Minha maior felicidade no cotidiano é ver vidas que retomam vidas; ser a primeira testemunha do poder dos sacramentos. Eu dou algo que é maior do que eu mesmo: Deus! »

Cédric, 34 anos, antigo campeão internacional de bicicross, atualmente Pároco na Paróquia Santa Juliane em Namur, Bélgica.

Então, o padre é um homem feliz?

Para refletir…

De acordo com o seríssimo jornal norte americano Times, aqueles que se declararam mais felizes em seu trabalho em ordem descrescente:
os padres (67 %),
os bombeiros (57,2 %),
os mecânicos automobilísticos (53,6 %),
os educadores especializados (52,6),
os atores(51 %),
os pilotos de avião (49,1 %)
etc.

(Pesquisa de Time, Novembro de 2007, www.time.com / dayinthelife)

• O padre = um homem escolhido por Deus, amigo do Cristo para salvar o mundo lhe abrindo o Caminho da Verdade.

• O padre = um homem alimentado pela Palavra de Deus encarregado de anunciar a seus irmãos o Evangelho de amor, de fé e de esperança

• O padre = Um homem de oração, cujo coração é ouvir a Deus para melhor amar e servir seus irmãos

• O padre = Um homem de louvor e oferenda em quem Cristo vive para elevar a Deus uma multidão de homens.

• O padre = um fiel servidor de Deus, um fiel servidor de todo homem.

• O padre = Um pai encarregado por Deus para abençoar, sustentar, levantar, acompanhar, despertar, iluminar, amar, perdoar, santificar…

 

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Eu serei capaz de viver o celibato toda a minha vida?

Resposta de Bento XVI

Querido amigo,

Sim, tu és capaz de viver o celibato toda a tua vida, na medida em que tu te comprometes, com o discernimento da Igreja, aceitando este celibato como um dom de Deus; e enquanto tu quiseres permanecer fiel a palavra dada a Deus. Isso não evitará as tentações, para as quais será necessário aprender a resistir, como todas as tentações, por uma oração mais fervente, e uma abertura do coração a um pai espiritual e a um confessor. Mas é necessário também colocar em prática a virtude cardial da prudência.

Resposta de Joao Paulo II

(Carta aos sacerdotes, na Quinta-Feira Santa 1979 (§ 8-9))

O celibato é exatamente «dom do Espírito». Dom semelhante, muito embora diverso, está contido na vocação para o verdadeiro e fiel amor conjugal, em ordem à procriação segundo a carne, no contexto tão sublime do sacramento do Matrimônio. É sabido que este dom é fundamental para construir a grande comunidade da Igreja, Povo de Deus. Contudo, se esta comunidade quiser corresponder plenamente à sua vocação em Jesus Cristo, é necessário que nela se realize, em proporção adequada, também o outro «dom», o dom do celibato «por amor do reino dos Céus» (37). Por que razão é que a Igreja Católica Latina liga este dom não apenas à vida das pessoas que aceitam o programa estrito dos conselhos evangélicos nos Institutos Religiosos, mas também à vocação para o Sacerdócio hierárquico e ministerial? Fá-lo porque o celibato «por amor do Reino» não é apenas um sinal escatológico. Tem também grande significado social na vida presente, no serviço a prestar ao Povo de Deus.

O Sacerdote, mediante o celibato, torna-se um homem «para os outros», de maneira diversa de como se torna tal aquele que, ligando se em unidade conjugal com a mulher, se torna também ele, enquanto esposo e pai, homem «para os outros» sobretudo no âmbito da própria família: para a esposa, e juntamente com ela para os filhos, aos quais dá a vida. O Sacerdote, ao renunciar à paternidade própria dos esposos, procura outra paternidade, e realmente como que outra maternidade, se recordamos as palavras do Apóstolo acerca dos filhos que ele gera com o sofrimento (38) Esses são filhos do seu espírito, homens confiados pelo Bom Pastor à sua solicitude. E são muito mais numerosos do que quantos possa abranger uma família humana. A vocação pastoral dos Sacerdotes é grande.

O Concílio ensina mesmo que ela é universal: está ordenada a toda a Igreja (39). Por conseguinte, é também missionária. Normalmente, está ligada ao serviço de determinada comunidade do Povo de Deus, onde, cada fiel espera encontrar atenção, dedicação e amor. O coração do Sacerdote, a fim de estar disponível para tal serviço, para tal solicitude e amor, tem de ser livre. O celibato é sinal de liberdade para servir. De acordo com este sinal, o sacerdócio hierárquico, ou «ministerial» — segundo a tradição da nossa Igreja — está assim mais estritamente «ordenado» ao serviço do sacerdócio comum dos fiéis.

Prova e responsabilidade

Fruto de equívoco — se não mesmo de má fé — é a opinião, com frequência difundida, de que o celibato sacerdotal na Igreja Católica é apenas uma instituição imposta por lei àqueles que recebem o sacramento da Ordem. Ora todos sabemos que não é assim. Todo o cristão que recebe o sacramento da Ordem compromete-se ao celibato com plena consciência e liberdade, depois de preparação de vários anos, profunda reflexão e assídua oração. Toma essa decisão de vida em celibato, só depois de ter chegado à firme convicção de que Cristo lhe concede esse «dom», para bem da Igreja e para serviço dos outros. Só então se compromete a observá-lo por toda a vida.

Fidelidade à Palavra dada
As dispensas

E óbvio, portanto, que tal decisão obriga não apenas em virtude da «lei» estabelecida pela Igreja, mas também em virtude da responsabilidade pessoal. Trata-se, pois, de manter a palavra dada a Cristo e à Igreja. Manter a sua palavra é, ao mesmo tempo, dever e verificação da maturidade interior do Sacerdote. E a expressão da sua dignidade pessoal. Isto manifesta-se com toda a clareza quando manter a palavra dada a Cristo, por compromisso celibatário consciente e livre para toda a vida, encontra dificuldades, é posto à prova, ou então exposto à tentação. São coisas que não poupam o Sacerdote, como não poupam aliás qualquer outro homem e cristão.

Nesses momentos, cada um deve procurar apoio na oração mais fervorosa. Mediante a oração, há de saber encontrar em si aquela atitude de humildade e sinceridade em relação a Deus e à própria consciência, que é a fonte da força para suster o que vacila. Nasce então nele confiança semelhante àquela que São Paulo exprimiu com estas palavras: «Tudo posso n’Aquele que me dá força» (40) Tais verdades são confirmadas pela experiência de numerosos Sacerdotes e comprovadas pela realidade da vida. A sua aceitação é a base da fidelidade à palavra dada a Cristo e à Igreja, que é ao mesmo tempo a autêntica fidelidade a si mesmo, à própria consciência e à própria humanidade e dignidade.

Cumpre pensar em tudo isto, principalmente nos momentos de crise, e não recorrer logo ao pedido de dispensa, entendida qual «intervenção administrativa», como se na realidade em tal caso não se tratasse, ao contrário, de profunda questão de consciência e de prova de ser homem. Deus tem direito a esta prova em relação a cada um de nós, pois a vida terrena de todos e cada um dos homens é na verdade tempo de provação. Deus quer que saiamos vitoriosos de tais provas. Para tanto nos dá o auxílio adequado.

Os que estão unidos pelo Matrimônio têm direito a esperar de nós testemunho de fidelidade até a morte

Talvez não seja fora de propósito e seja até conveniente acrescentar aqui que o compromisso da fidelidade conjugal, derivado do sacramento do Matrimônio, cria, no seu âmbito próprio, obrigações análogas. Por vezes torna-se terreno de provas e dificuldades análogas para os esposos, marido e mulher. Também eles têm assim modo de verificar no meio dessas «provas de fogo» o valor do seu amor. O amor, de facto, em todas as suas dimensões, não é apenas chamamento, mas também dever. Acrescentemos, por fim, que os nossos irmãos e irmãs ligados pelo matrimônio, tem direito a esperar de nós, Sacerdotes e Pastores, bom exemplo e testemunho de fidelidade à vocação até à morte.

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/1979/documents/hf_jp-ii_let_19790409_sacerdoti-giovedi-santo_po.html

 

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E se Deus me chamava a vida consagrada no celibato?

doc1Deus chama alguns homens ao sacerdócio, mas ele chama outros a se doar a ele de corpo e alma numa vida « ordinária » ardente e alegre. Um irmão consagrado na Comunidade Emanuel é um homem que reconheceu um chamado a se doar inteiramente ao Pai, no seguimento ao Cristo, sob a condução do Espírito Santo. A maneira de um consagrado viver é a que Cristo viveu durante os trinta anos que ele passou com Maria e José em Nazareth. Uma vida doada gratuitamente, às vezes no silêncio. Uma vida de trabalho, uma vida de relacionamento, uma vida familiar com Maria e José. Em suma, ele vive uma vida ordinária de uma maneira extraordinária.

De uma certa forma nesta vida, há um mistério de gratuidade. Porque os Evangelhos não nos dão muitos detalhes sobre estes primeiros anos do Cristo? Porque este escolheu a vida escondida. Uma vida escondida não quer dizer uma vida inútil ou sem valor; isso quer simplesmente dizer que o importante não é ser visto pelos homens, mas por Deus. Ele que conhece o coração de cada um. Como o diz Jesus: « Teu Pai vê o que tu fazer no segredo e ele te retribuirá ».

O fundador da comunidade Emanuel, Pierre Goursat, nos mostrou este caminho. Ele viveu plenamente sua vida de homem no mundo, mas colocando Deus em primeiro. Deus se serve frequentemente de homens que não são « brilhantes » aos olhos do mundo, mas que são a seus olhos astros que iluminam e portam o mundo. Pierre tinha nele este fogo do amor de Deus. Ele era todo entregue a Deus e seus irmãos.

Ter um coração entregue a Deus, isto significa ter um coração que não está dividido. Deus completa o coração de um homem que se doa com alegria.

Pode-se ser tentado a pensar?: “Viver o espírito dos conselhos evangélicos, não é possível no mundo de hoje em dia”. Mas se Deus chama, ele doa também os meios para responder a seu apelo. Ele é fiel e dá os meios para avançar sempre para ele, mesmo através dos combates onde nos faltam – e nos faltarão – forças para viver.

Deus ama os homens e os preenche com seu amor para além do que nós podemos fazer. O irmão consagrado, celibatário pelo Reino, é testemunha que Deus ama todos os homems porque ele mesmo se sente amado e inundado por ele.

Esta vocação ao celibato no coração da sociedade é profética para nosso mundo de hoje em dia. Ele nos lembra que nosso batismo nos impulsiona para a santidade e que um homem pode responder a sua vocação de batizado escolhendo não se casar para ser sinal do Reino e manifestar que Deus só preencher o homem. É por uma vida profissional, social, amigável, fraterna e de oração inserida no coração do mundo que nós testemunhamos o amor de Deus para todos os hoje em dia. Ser “no coração do mundo sem ser do mundo”, é ter bem os pés sobre a terra e estar “conectado” sobre o coraç ão do Cristo que ama todos os homens.

 

Contato : mbrulon@emmanuel.info

doc2

 

 

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Vocação Religiosa: Ainda adaptada aos Jovens?

doc1No terceiro domingo do mês Vocacional celebramos a Vocação Religiosa. Quando nos referimos à vida religiosa, temos presente os homens e as mulheres que, vivendo em comunidade, buscam a perfeição pessoal e assumem a missão própria do seu Instituto, Ordem ou Congregação. Na solenidade da Assunção de Maria ao Céu, a Igreja lembra que a Mãe de Jesus é modelo para todos os cristãos, e, de forma particular, dos que se consagram a Deus pelos conselhos evangélicos: pobreza, castidade e obediência.

Hoje existem diferentes formas de vida consagrada, desde os que testemunham a fé em comunidades apostólicas, contemplativas e monásticas, até os que, pessoalmente, se inserem nas realidades profissionais e evangelizadoras, e aí vivem sua consagração e missão. Recordamos aqui os inúmeros institutos seculares.

O fundamento evangélico da vida consagrada está na relação que Jesus estabeleceu com alguns de seus discípulos, convidando-os a colocarem a sua existência ao serviço do Reino, deixando tudo e imitando mais de perto a sua forma de vida. A origem da vida consagrada está, pois, no seguimento de Jesus Cristo a partir da profissão pública dos conselhos evangélicos. A referência vital e apostólica são os carismas de fundação. Sua função consiste em dar testemunho de santidade e do radicalismo das bem-aventuranças.
Eis alguns ensinamentos do Documento de Aparecida sobre os consagrados: “A vida consagrada é um dom do Pai, por meio do Espírito, à sua Igreja. É um caminho de especial seguimento de Cristo, para dedicar-se a Ele com o coração indiviso e colocar-se, como Ele, a serviço de Deus e da humanidade, assumindo a forma de vida que Cristo escolheu para vir a este mundo: vida virginal, pobre e obediente” (Nº 216). Falando do valor do testemunho da vida contemplativa, continua Aparecida: “De maneira especial, a América Latina e o Caribe necessitam da vida contemplativa, testemunha de que somente Deus basta para preencher a vida de sentido e de alegria. Em um mundo que continua perdendo o sentido do divino, diante da supervalorização do material, vocês queridas religiosas, comprometidas desde seus claustros a serem testemunhas dos valores pelos quais vivem, sejam testemunhas do Senhor para o mundo de hoje, infundam com sua oração um novo sopro de vida na Igreja e no homem atual” (Nº 221 e Discurso de João Paulo II às Religiosas de Clausura, México, 30/01/1979).

O Papa Bento XVI, no Discurso de Abertura da V Conferência, em Aparecida, referindo-se aos jovens e à pastoral vocacional, expressou: “Na América Latina a maioria da população está formada por jovens. A este respeito, devemos recordar-lhes que sua vocação é serem amigos de Cristo, discípulos, sentinelas do amanhã, como costumava dizer o meu predecessor João Paulo II. Os jovens não temem o sacrifício, mas, sim, uma vida sem sentido. São sensíveis à chamada de Cristo que os convida a segui-lo. Podem responder a essa chamada como sacerdotes, como consagrados e consagradas, ou ainda como pais e mães de família, dedicados totalmente a servir aos seus irmãos com todo o seu tempo, sua capacidade de entrega e com a vida inteira. Os jovens encaram a existência como constante descoberta, não se limitando às modas e tendências comuns, indo mais além com uma curiosidade radical acerca do sentido da vida, e de Deus Pai Criador e Deus Filho Redentor no seio da família humana. Eles devem se comprometer por uma constante renovação do mundo à luz de Deus. Mais ainda: cabe-lhes a tarefa de opor-se às fáceis ilusões da felicidade imediata e dos paraísos enganosos da droga, do prazer, do álcool, junto com todas as formas de violência” (D.I,5).

Que, cada vez mais, os religiosos, as religiosas e consagrados sejam para o mundo testemunhas de que existe outra forma de viver com sentido. Rezemos para que sejam entre nós sinais vivos e confiáveis do amor de Deus e de seu Reino. Com eles vamos formar a grande comunidade, que é a Igreja, em sua missão de evangelização. E que muitos jovens descubram que vale a pena dar a vida Àquele que por primeiro deu a Sua vida por nós, Cristo Jesus.

Mons. José Maria Pereira

Fonte: http://www.presbiteros.com.br/site/vocacao-religiosa-proposta-aos-jovens/

 

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Por que oferecer uma missa?

doc1A missa é memorial vivo do Cristo ofertando sua vida em sacrifício de amor por cada um de nós: « eis aqui o meu Corpo entregue por vós; eis aqui o meu Sangue derramado pela multidão. » Oferecer um missa é um belo ato de fé no poder do sacrifício de Cristo, um sinal concreto do dom de si na fé e na oração: « os fiéis se associam mais estreitamente ao Sacrifício de Cristo e retiram frutos espirituais mais abundantes… A Igreja vê como um sinal de união do batizado ao Cristo, de união do fiel com o padre que exerce seu ministério para o bem deles. » (Paulo VI)

Oferecer para quem?

Toda missa é celebrada para o mundo inteiro. Entretanto, podemos confiar uma intenção particular, mais frequentemente um defunto: « Ajuda-nos, todos, Deus nosso Pai, a preparar a vinda de teu reino até que a hora onde nós estaremos diante de ti, santos entre os santos do céu… com nossos irmãos que estão mortos e que nós confiamos a tua misericórdia. » (Oração eucarística).

Podemos também celebrar a missa por um defunto, um doente, um parente, uma amigo, para jovens casados, um casal ou crianças em dificuldades, por si mesmo, pela paz, pela vida do mundo, pela vida da Igreja… Muitos poderiam testemunhar graças recebidas por meio desta prática. É igualmente possível celebrar missas de ação de graça por bodas de ouro ou de prata, por um aniversário, uma cura, uma conversão…

Vocês podem indicar simplesmente « por uma intenção particular” se você prefere a discrição. Você pode celebrar uma ou muitas missas em função da importância da intenção.

História da oferenda de missa na Igreja

A missa não tem preço. Mas desde as origens, os fiéis quiseram participar da Eucaristia por meio de ofertas em natura ou em espécies. Elas eram destinadas a assegurar os custos do culto, a subsistência dos padres, a vida da Igreja. Esta é a origem da prática dos “honorários da missa”, que datam do século VIII e que se enraízam no Antigo Testamento onde o padre recebia uma parte dos sacrifícios dados a Deus. O padre deve sempre poder “ viver do altar”. O código de direito canônico legitima esta prática (C945) e a regulamenta (C946 e seguintes). A vida material da Igreja é de seu clero repousa sobre esta contribuição voluntária dos fiéis.

Como oferecer?

Para isso, dirija-se a paróquia mais próxima de tua casa, num santuário católico, ou envie uma oferta (em torno de R$15,00) a um padre da Comunidade Emanuel que celebrará a missa. Para isso, vá até a página « doação » deste site.

 

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