Comunidade Emanuel do Brasil

A extraordinária história de Cyprien e Daphrose Rugamba

A história de Cyprien e Daphrose Rugamba é um testemunho extraordinário da união conjugal: suplicada, buscada, dada por Deus e frutuosa na Igreja.

Cyprien era um jovem adulto ruandês talentoso, cuja noiva, apaixonadamente amada, morreu nos confrontos étnicos de 1965 em Ruanda. Após a morte dela ele decidiu continuar na família da noiva e pediu a mão de uma prima dela, Daphrose, sem realmente amá-la. Eles se casaram nesse mesmo ano.

Cyprien estava se tornando então uma figura bem conhecida nacionalmente, por seus estudos de dança, música, poesia ruandesas tradicionais e por compor e cantar canções populares na sua língua oficial, mas era arrogante e insensível com sua esposa e não levantava um dedo para ajudá-la na cozinha, nas compras ou em viagem. No entanto, a família de Daphrose era profundamente católica (enquanto a de Cyprien ainda seguia a religião tradicional africana), então eles oraram pela conversão dele e pela reconciliação entre os cônjuges (uma das irmãs de Cyprien havia caluniado Daphrose, Cyprien então empacotou as coisas da esposa e levou-a até a casa de seus pais). Daphrose foi muito sincera em suas orações, e quando Cyprien percebeu seu grande erro e pediu que ela voltasse para casa, ela perdoou a ele e à irmã, de coração, e voltou.

Mas os anos que se seguiram ainda foram muito difíceis, porque embora morassem juntos, Cyprien não era fiel à esposa e rejeitava qualquer tipo de símbolo religioso na casa. Daphrose simplesmente chorava em silêncio e orava para que Jesus tocasse o coração do marido.

Em 1982 ele passou por uma conversão profunda. Tudo começou com uma crise de saúde que o deixou quase inválido, terminando em uma cura com forte chamado pessoal a reconciliação com o Senhor. Ao fazer essa experiência de Jesus, Cyprien tornou-se um novo homem: humilde, e penitente, dedicado à oração e ao louvor, dando testemunho disso ao Senhor em seu casamento.

Tendo conhecido alguns membros da Comunidade Emanuel, que trabalhavam em Ruanda, Cyprien e Daphrose e decidiram se juntar a este movimento eucarístico carismático internacional e fundá-lo em Ruanda.

O casal começou a multiplicar as atividades apostólicas conjuntamente: formação de casais se preparando para o matrimônio, ajuda para crianças de ruas, animação litúrgica para os encontros da Comunidade Emanuel, evangelização de rua e esforços de reconciliação social e étnica, apesar do clima contrário no país. Isso foi no início dos anos 1990, quando a limpeza étnica proposta por forças políticas estava sendo cada vez mais mencionada por certas estações de rádio populares.

Quando os combates genocidas eclodiram, na Sexta-feira Santa de 1994, a família de Cyprien e Daphrose estava entre os mortos nas primeiras 24 horas (seis dos dez filhos morreram com eles). Eles estavam evidentemente em uma “lista de marcados para morrer”, como pessoas que obstruíram e se opuseram à limpeza étnica e propuseram um caminho social totalmente diferente, o do Reino de Deus, da vida sacramental, do ministério social para os mais vulneráveis e da reconciliação nacional.

Na noite em que a luta começou, ou seja, na véspera de seu próprio assassinato, Cyprien estava ensaiando um coral na Comunidade Emanuel, liderando-os em uma das muitas canções de louvor que compusera, intitulada “Entrarei na nova Jerusalém dançando. A certa altura ele parou o coral: “Ah, não! A coisa é assim!”, e se lançou numa linda dança ilustrando a música carismática. Quando, mais tarde, as pessoas souberam de sua morte pelas mãos dos esquadrões da morte, ficaram impressionadas: aquela acabou sendo a despedida dele da comunidade.

Os Rugamba sabiam naquela noite que estavam em perigo imediato (eles e os filhos), e assim passaram a noite inteira em sua capela eucarística, em adoração, e pela manhã receberam a Comunhão em meio aos sons horríveis do massacre. Para um membro europeu da comunidade que telefonou para eles no início da manhã, assustado com a notícia do genocídio ocorrido em Ruanda, eles apenas responderam: “Rezem!”. Horas depois, o Interahamwe* invadiu sua casa, levou os dois com os sete filhos para o jardim e matou seis deles, um conseguiu se fingir de morto.

Os Rugamba, juntamente com vários outros membros leigos da Comunidade Emanuel, testemunharam com suas vidas o plano de paz de Deus para o seu povo. A canonização deles foi proposta pelos bispos do país.

A Comunidade Emanuel, fundada em Kigali em 1990 pelos Rugamba, continua a ser um fermento cristão na sociedade ruandesa.

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*O Interahamwe é uma organização paramilitar de hutus de extrema-direita, ativa na República Democrática do Congo e Ugunda.

Texto adaptado de: Encarte especial Equipes de Nossa Senhora

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